Passados 40 anos das rebeliões estudantis que tomaram as ruas de Paris, o Maio de 68 permanece no imaginário ocidental como uma espécie de marco de um mundo cujas idéias em ebulição abririam as portas para uma série de mudanças no comportamento político e existencial das gerações seguintes. (Les Amants Réguliers), de , mergulha nas entranhas do movimento, mas ao contrário de muitas outras obras em torno do tema, concentradas nos aspectos políticos do período, vai aproximar-se da alma dos jovens rebeldes, pelo viés do amor, da poesia e do ópio, ao relatar o encontro entre dois estudantes que, em meio às barricadas do Quartier Latin, iniciam uma relação emblemática e reveladora dos desdobramentos provocados pela inquietação surgida após o retorno à “normalidade”.

Garrel pode falar com propriedade do que aconteceu naqueles dias quando a imaginação queria tomar o poder. Na época, era também um jovem cineasta envolvido com os acontecimentos, em plena realização de um curta-metragem de vanguarda intitulado Le Révélateur e se considerava um poeta das imagens, seguindo os passos da então dominante estética da Nouvelle Vague no francês, movimento ao qual, de certa forma, se mantém relativamente fiel, a julgar pelos seus filmes precedentes, os quais infelizmente nunca chegaram por aqui. Amantes Constantes, portanto, é o seu primeiro trabalho a chegar ao circuito comercial brasileiro e agora ganha versão em DVD.

O filme, com quase três horas de duração, exige do espectador disponibilidade não apenas de tempo. Para acompanhar os passos do estudante poeta François Dervieux (Louis Garrel, filho do diretor, e o novo bombom do cinema francês – ele pode ser visto em Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci e em Les Chansons d’Amour, de Christophe Honoré) e sua convivência com a bela Lilie (Clotilde Hesme), é preciso desvencilhar-se de uma série de vícios impostos pelo formato estandartizado do cinema contemporâneo. É uma obra para ser vivida como uma experiência sensorial e estética, a começar pelo uso da fotografia em preto e branco, os planos longos, uma reconstituição teatralizada das cenas dos confrontos e por uma câmera, buscando alcançar a essência dos seus protagonistas, o que vai permitir entender efetivamente como era a vida desses jovens burgueses, durante algum tempo acreditando em uma vida diferente na qual poetas e pintores de parede teriam o mesmo valor.

É nesta extensão proposital da narrativa por onde Garrel vai nos revelar sua visão romântica e sublimada da derrota imposta pelas forças da ordem sobre os jovens rebeldes. Este ponto de vista do diretor, efetivamente, pode ser questionado e com certeza nem todos terão paciência de compartilhar de suas premissas. Contudo, basta encarar o filme não como um mero espetáculo sobre uma época, mas como uma reconstituição íntima de ideais e de sonhos que pouco a pouco vão se diluindo como a fumaça escapando dos cachimbos repletos de ópio, e, no final, a paixão foi tragada pela necessidade de encarar a realidade e a morte foi o último refúgio para os que não conseguiram suportar a dor de ver como as palavras apenas eternizam as ilusões.

AMANTES CONSTANTES | Les amants réguliers
Philippe Garrel
(Drama, 178 min, FRA, 2005)

Elenco: Louis Garrel, Clotilde Hesme, Julien Lucas, Eric Rulliat, Nicolas Bridet, Mathieu Genet, Raïssa Mariotti, Caroline Deruas-Garrel, Rebecca Convenant, Marie Girardin, Maurice Garrel e Cécile Garcia-Fogel.

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[+] Alexandre Figueirôa é doutor em cinema pela Sorbonne (França) e autor dos livros Cinema Novo: A Nova Onda do Jovem Cinema e Sua Recepção na França (Papirus) e Cinema Pernambucano: Uma História em Ciclos (FCCR). Atualmente é professor da Pós-Graduação em Cinema da Universidade Católica de Pernambuco. Escreve nesta coluna sobre os últimos lançamentos em DVD.

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