Passados 40 anos das rebeliões estudantis que tomaram as ruas de Paris, o Maio de 68 permanece no imaginário ocidental como uma espécie de marco de um mundo cujas idéias em ebulição abririam as portas para uma série de mudanças no comportamento político e existencial das gerações seguintes. Amantes Constantes (Les Amants Réguliers), de Philippe Garrel, mergulha nas entranhas do movimento, mas ao contrário de muitas outras obras em torno do tema, concentradas nos aspectos políticos do período, vai aproximar-se da alma dos jovens rebeldes, pelo viés do amor, da poesia e do ópio, ao relatar o encontro entre dois estudantes que, em meio às barricadas do Quartier Latin, iniciam uma relação emblemática e reveladora dos desdobramentos provocados pela inquietação surgida após o retorno à “normalidade”.

Garrel pode falar com propriedade do que aconteceu naqueles dias quando a imaginação queria tomar o poder. Na época, era também um jovem cineasta envolvido com os acontecimentos, em plena realização de um curta-metragem de vanguarda intitulado Le Révélateur e se considerava um poeta das imagens, seguindo os passos da então dominante estética da Nouvelle Vague no cinema francês, movimento ao qual, de certa forma, se mantém relativamente fiel, a julgar pelos seus filmes precedentes, os quais infelizmente nunca chegaram por aqui. Amantes Constantes, portanto, é o seu primeiro trabalho a chegar ao circuito comercial brasileiro e agora ganha versão em DVD.

O filme, com quase três horas de duração, exige do espectador disponibilidade não apenas de tempo. Para acompanhar os passos do estudante poeta François Dervieux (Louis Garrel, filho do diretor, e o novo bombom do cinema francês – ele pode ser visto em Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci e em Les Chansons d’Amour, de Christophe Honoré) e sua convivência com a bela Lilie (Clotilde Hesme), é preciso desvencilhar-se de uma série de vícios impostos pelo formato estandartizado do cinema contemporâneo. É uma obra para ser vivida como uma experiência sensorial e estética, a começar pelo uso da fotografia em preto e branco, os planos longos, uma reconstituição teatralizada das cenas dos confrontos e por uma câmera, buscando alcançar a essência dos seus protagonistas, o que vai permitir entender efetivamente como era a vida desses jovens burgueses, durante algum tempo acreditando em uma vida diferente na qual poetas e pintores de parede teriam o mesmo valor.

É nesta extensão proposital da narrativa por onde Garrel vai nos revelar sua visão romântica e sublimada da derrota imposta pelas forças da ordem sobre os jovens rebeldes. Este ponto de vista do diretor, efetivamente, pode ser questionado e com certeza nem todos terão paciência de compartilhar de suas premissas. Contudo, basta encarar o filme não como um mero espetáculo sobre uma época, mas como uma reconstituição íntima de ideais e de sonhos que pouco a pouco vão se diluindo como a fumaça escapando dos cachimbos repletos de ópio, e, no final, a paixão foi tragada pela necessidade de encarar a realidade e a morte foi o último refúgio para os que não conseguiram suportar a dor de ver como as palavras apenas eternizam as ilusões.

AMANTES CONSTANTES | Les amants réguliers
Philippe Garrel
(Drama, 178 min, FRA, 2005)

Elenco: Louis Garrel, Clotilde Hesme, Julien Lucas, Eric Rulliat, Nicolas Bridet, Mathieu Genet, Raïssa Mariotti, Caroline Deruas-Garrel, Rebecca Convenant, Marie Girardin, Maurice Garrel e Cécile Garcia-Fogel.

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[+] Alexandre Figueirôa é doutor em cinema pela Sorbonne (França) e autor dos livros Cinema Novo: A Nova Onda do Jovem Cinema e Sua Recepção na França (Papirus) e Cinema Pernambucano: Uma História em Ciclos (FCCR). Atualmente é professor da Pós-Graduação em Cinema da Universidade Católica de Pernambuco. Escreve nesta coluna sobre os últimos lançamentos em DVD.

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