Alain Robb-Grillet (Foto: Yahoo/ Divulgação)

O ÚLTIMO HOLOCAUSTO DAS FADAS
Antes de morrer escritor exigiu que Um Romance Sentimental não fosse visto como parte integrante de suua obra séria
Por Talles Colatino

UM ROMANCE SENTIMENTAL

[Record, 240 págs, R$ 29]

Foi em fevereiro desse ano que uma das vozes mais fortes da literatura contemporânea silenciou em meio a um verdadeiro bombardeio. O escritor e roteirista francês Alain Robbe-Grillet era o principal nome do movimento conhecido como “nouveau roman” (novo romance), corrente que representava uma ruptura com a estrutura predominante do romance, recusando a linearidade narrativa e a ordem cronológica. Aos 85 anos, quatro meses antes da sua morte, Grillet escandalizou o mundo com o lançamento de Um Romance Setimental, um depravado conto de fadas, que chega agora às livrarias brasileiras.

O livro, que entra em sintonia com o caráter polêmico que marcou a trajetória do escritor, narra um mundo que inspira devaneios sexuais representado por uma mansão, seu dono, Sorel – um senhor de meia-idade – e sua filha Gigi, de 15 anos. O leitor é catapultado para o interior da relação incestuosa entre o pai e a filha que, além da cama, dividem uma profunda admiração pela literatura erótica do século 18. O sadismo que mascara os dois personagens é desvendado com a chegada de Odile, entregue a Gigi como escrava sexual.

A edição brasileira chega “lacrada por conteúdo impróprio”, mas deveria ser destacado é o quanto este conteúdo pode soar gratuito. Não se trata de encarar o sexo como tabu, mas o fato da progressão das situações de tortura e exploração acabam por cansar a evolução narrativa. É como se várias alegorias que surgem representar as fantasias mais subterrâneas entrassem num holocausto e terminassem por cair, sem força, na recepção da leitura. Resumindo: chato. O próprio Grillet exigiu, antes de morrer, que não encarassem Um Romance Sentimental como parte integrante de sua obra séria.

Apesar disso, o homem que carrega os créditos por livros representativos como Os Últimos Dias de Corinto e A Retomada, além de assinar o roteiro indicado ao Oscar de O Ano Passado em Marienbad (dirigido por Alain Resnais) deixou em “Um Romance Sentimental” um último suspiro que tem seus méritos. O maior deles, certamente, é a elegância e a carga – quase catártica – de lirismo para desdobrar o sadismo de seus personagens.

Nessas entrelinhas suaves é notável também um certo tom de crítica em relação à educação comportamental das mulheres através dos tempos. A figura do Sorel, de pai, educador e dono de Gigi estimula e baseia suas ações nas formas de como as mulheres foram submetidas à submissão ao longo da história social. Um doce carrasco que fortalece a idéia de que nem sempre um romance é romântico e um sentimento, linear. Bem como o livro, contradizendo seu título, propõe.

Sem mais artigos