Ainda Orangotangos (Foto: Divulgação)

TRI-LEGAL, TCHÊ!
Filme gaúcho, gravado em um só plano sequência, é um freak show bizarro e hilário que injeta criatividade e loucura no cinema nacional
Por Eduardo Carli de Moraes

AINDA ORANGOTANGOS
Dir. Gustavo Spolidoro
[Ainda Orangotangos, Brasil, 2007]

Se você reparar bem, bem mesmo, vai ter que concluir: no fundo ninguém é normal. E os loucos são maioria neste grande hospício a céu aberto que chamamos mundo. Ainda Orangotangos, longa de estréia do gaúcho Gustavo Spolidoro, é uma frenética ode à excentricidade e à doidice humana. Há anos o cinema brasileiro não produzia uma piração tão fina. Taí um filme que se parece com uma festa punk ou um circo de horrores, onde desfilam bizarrices e trashices das mais variadas, gerando algo que não tem paralelos na nossa filmografia fora o clássico Matou A Família e Foi Ao Cinema, do Julio Bressane.

Apesar do que possa sugerir o título, o filme não vem nem um pouco contaminado com misantropia. Ainda Orangotangos está longe soltar pelas ventas um fogo condenatório contra os vícios humanos e sociais, como tantas obras “de esquerda” que surgiram no rastro de Cronicamente Inviável. A ênfase aqui é no retrato surreal de um mundo que saiu dos trilhos, mas sem que se apontem culpados ou se sugiram soluções. Limpo de qualquer moralismo, o filme só nos pinta um quadro móvel e para lá de excêntrico de um mundo onde a sanidade humana está infalivelmente indo para o brejo.

Os primatas que o filme nos apresenta são impagáveis figuraças. É gente que dá porrada no Papai Noel tarado no busão. Que toma porre de perfume, gargalha até quase estourar os pulmões e depois desmaia na banheira. Que ameaça explodir com granada um baile de debutantes super evangélico. Que morre no vagão do trem sem que ninguém pareça notar e sem que a bandinha pare de tocar. Que vaga pelas ruas com manuscritos pornográficos “geniais” em busca de publicação. E muito mais. Uma galeria humana bizarra, diversificada e sempre piradaça.

Ainda Orangotangos monta um circo (nem tanto de horrores quanto de excentricidades) com uma atração tão forte pelo bizarro e pelo grotesco que merece o rótulo de fellinesco. Em certos momentos, vira um filme-pesadelo digno de Lynch. Em certas cenas, parece os momentos mais exaltados de chapação em John Cassavettes. Mas acaba mesmo é parecendo o filme que Emir Kusturica faria, doidão de ácido, se lhe dessem uma câmera digital, um orçamento apertado e a liberdade de perambular por uma cidade latino-americana para filmar um freak show.

Literatura
As adaptações para a telona de romances e contos de jovens talentos da literatura nacional está na moda, em especial de autores gaúchos como Clarah Averbuck (que teve sua obra filmada por Murilo Salles em Nome Próprio) e Daniel Galera (cujo romance Até O Dia Em Que O Cão Morreu virou o elogiado Cão Sem Dono, de Beto Brant). Ainda Orangotangos foi baseado na obra de Paulo Scott, outro nome forte desta cena literária efervescente. Originalmente lançado pela Livros do Mal, o livro acaba de ser reeditado pela Editora Record.

Ainda Orangotangos (Foto: Divulgação)

Em 81 minutos, sem nenhum corte, o filme de Spolidoro é o primeiro longa brasileiro rodado em um único plano-seqüência – tática de filmagem incomum, mas que já gerou obras célebres (como o Festim Diabólico, de Hitchcock) e cultuados (como o Arca Russa, de Sokurov). Mais de 180 pessoas, num perímetro urbano de 15km, foram mobilizadas em Porto Alegre para as filmagens. Os ensaios antes de se apertar o REC foram cuidadosos e exaustivos. Na hora do vamos-ver, foram feitos seis takes. A seqüência eleita foi a segunda, rodada no dia 08/12/2006.

Ainda Orangotangos parece apostar na tese de que a realidade é muito mais surreal do que qualquer delírio da imaginação, que uma grande cidade é bem mais lotada de bichos selvagens do que um zoológico e de que talvez a lei da evolução não seja uma verdade universal: não somos nós ainda uns gorilas irracionais e tresloucados?

Como cenário por onde vagam esses personagens, há sempre uma cidade vista através de uma perspectiva bem pessoal e idiossincrática – como são a Manhattan de Woody Allen, a Dublin de James Joyce ou a Paris de Victor Hugo. O governo estadual provavelmente não apostaria nisso, achando carolamente que o filme é quase um queima-filme da reputação primeiro-mundesca do sul brasileiro, mas Ainda Orangotangos pode ser uma ferramenta ótima para atrair turistas para o Rio Grande do Sul. Como não?! Nos festivais internacionais, certamente não vão faltar aqueles que, entusiasmados, vão ficar loucos de vontade de ir dar um rolê num canto do mundo tão lindamente endoidecido. Com uma trilha sonora e uma gangue de personagens altamente punk, Ainda Orangotangos é uma anárquica e hilária celebração do lado extremo e bizarro da vida, pintando um quadro dionisíaco de Porto Alegre como um verdadeiro lugar do caralho.

NOTA: 9.0

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