DURÃO COM CLASSE
Devir lança primeiras histórias do detetiva X-9, clássico das HQs que influenciou gerações de artistas e atravessou décadas fazendo sucesso na imprensa

Por Paulo Floro
Editor da Revista O Grito!

A época era de ingenuidade, mas obras como Agente Secreto X-9, ainda mantém a força criativa até hoje. Num mundo maniqueísta, onde o crime não compensava de jeito nenhum, as histórias sempre eram pautadas pela luta do bem contra o mal. O texto do escritor Dashiell Hammett conseguiu ir um pouco além dessa dinâmica, sem, no entanto, desvirtuar a eterna luta contra o crime característico desses quadrinhos.

Agente Secreto X-9 influenciou diversas gerações de desenhistas e roteiristas de quadrinhos e tornou-se um sucesso de público pela astúcia e tom irônico de seu herói, que combatia o crime sem precisar apelar para um tom moralista ou um bom-mocismo exagerado. A tira estreou em 22 de janeiro de 1934. Surgiu como forma de competir com outro detetive famoso das HQs, Dick Tracy, criado por Chester Gould em 1931.

O grande magnata da imprensa americana, William Randolph Hearst não gostou do sucesso de Dick Tracy e chamou Hammett, que obteu a fama com o livro e a adaptação para o cinema de O Falcão Maltês. O escritor, conhecido boêmio inveterado e frequentador de festas aceitou o desafio de escrever uma tira diária por conta da proposta irrecusável na época de 500 dólares semanais.

O artista escolhido para a tira foi Alex Raymond, autor de Flash Gordon. Acostumados a roteiros fáceis e relativamente banais, os leitores estranharam o requinte e as tramas elaboradas de Hammett. O desgaste acarretou o afastamento do escritor, que escrevey a última história “O Caso Martyn”, presente nessa edição da Devir.

“O estilo ‘classudo’ e dinâmico de Raymond combinou perfeitamente com a narrativa do escritor e pode-se dizer que a série começou com o ‘pé direito’. No entanto, com o passar das semanas, os leitores começaram a se sentir meio perdidos em meio à trama complexa desenvolvida por Hammett, que parecia estar se divertindo em escrever o roteiro, que refletia bastante o que ele já havia feito em seus outros livros de sucesso”, diz o editor Leandro Luigi Del Manto no prefácio da edição brasileira. “A primeira aventura de X-9 se estendeu por mais de sete meses!”, conta.

A edição que a Devir lança nas livrarias e comic-shops cobre a fase que Hammett passou à frente do título. O recorte serve para entender a obra sob uma perspectiva histórica, mas este é também o período de maior qualidade das tiras de X-9. Outros nomes desenharam o personagem, como Bob Lewis, Archie Goodwin e Al Williamson, culminando com o cancelamento em fevereiro de 1996.

No Brasil, a tira também fez muito sucesso. Virou gíria no mundo policial e chegou a batizar escola de samba em São Paulo. Personagem ligado à efervescência pós-Depressão nos EUA, X-9 encarnava o estereótipo do detetive durão em histórias cheias de ação, sem para isso perder o estilo e classe. Sua trajetória na imprensa americana chama atenção pela longevidade. A oportunidade de curtir sua fase áurea com esse lançamento da Devir é uma grande notícia para amantes de quadrinhos.

A edição traz as tiras no formato original horizontal e tem informações úteis que contextualizam o momento histórico e dão detalhes sobre a criação do personagem. A impressão em um tom sépia cansa um pouco a leitura, mas nada que prejudique a leitura de um clássico, que depois de anos, sai da obscuridade.

AGENTE SECRETO X-9
Dashiell Hammett e Alex Raymond
[Devir Livraria, 216 págs, R$ 48]

NOTA: 8,0

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