Buraka Som Sistema (Foto: Divulgação)

ÁFRICA EM CAIXA ALTA
A cultura africana invade eixos tradicionais da cultura mundial de modo cada vez mais notável com grupos como o Buraka Som Sistema e Esau Mwamwaya & Radioclit
Por Eduardo Carli de Moraes

A dívida que possui o Primeiro Mundo em relação à África é exorbitante: riquezas espoliadas, culturas arruinadas, seres humanos roubados e escravizados, luxo europeu comprado às custas da miséria e perdição de todo um continente. Nestes tempos de pós-colonialismo, porém, pelo menos no “Palco da Cultura” a África tem conquistado mais destaque e suas mazelas e belezas têm sido mais reconhecidas que ignoradas. É só pensar que as lentes das câmeras de cinema têm se voltado para aquelas bandas com frequência crescente. A guerra civil entre tutsis e hutus em Ruanda foi ficcionalizada em Hotel Ruanda; a situação de Uganda sob a ditadura de Amin foi descrita de modo pungente em O Último Rei da Escócia; até mesmo nosso Fernando Meirelles mexeu no vespeiro, tratando da questão das multinacionais que se instalam no Quarto Mundo com intentos maquiavélicos em seu O Jardineiro Fiel.

Já no cinema de não-ficção, a onda também é reconhecível: no excelente documentário Pátria Proibida – God Grew Tired Of Us, há um painel muito convincente do choque cultural e emocional que ocorre quando um grupo de refugiados do Sudão chega ao Tio Sam. Sem falar da devastadora crônica sobre a miséria e a guerra na Tanzânia que nos ofereceu um dos mais chocantes e demolidores documentários da década, O Pesadelo de Darwin. Provas de que um continente inteiro assolado pela miséria, devastado pela AIDS, corroído por dentro por guerras civis intermináveis, está pelo menos tendo suas chagas expostas ao resto da humanidade, que talvez preferiria fechar os olhos e fingir que tudo está muito bem, obrigado.

Na música pop, uma certa revalorização da cultura africana parece estar em curso. É um fenômeno que para de ser algo extremamente eventual (lembremos, por exemplo, que Remain In Light, clássico álbum do Talking Heads de 1980, é um dos únicos casos de disco clássico na história do rock que vem impregnado até os ossos com influências africanas) e passa a ser quase uma “moda”. É só lembrar que uma das bandas mais “hype” de 2008, o Vampire Weekend, presta homenagem escancarada à África Sônica em seu álbum de estréia, e que uma das mais cultuadas rappers dos últimos anos, M.I.A., também está com os dois pés fincados neste solo cultural. Dois grupos mais complementam esta maré montante de africanidade no mundo pop, que ultrapassa os limites estanques do que chamamos de “world music” e flui para dentro de outros compartimentos da cena musical global.

O Buraka Som Sistema vem de Portugal, mas não devemos imaginar nada parecido com os portugueses que a gente costumava ver desenhados, cheios de garbo, nos nossos livros de história, posando no papel de grandes reis, imperadores e latifundiários. Esses portugas são “da perifa” e a o Buraka soa como música genuinamente do subúrbio, para o subúrbio e que acaba, como tantas outras, estourando as paredes deste gueto. Ele tocam uma mistura de música eletrônica simplérrima (um “pancadão” de batidas frenéticamente repetitivas) com kuduro, estilo musical característico de Angola. Esta novidade surgiu em Luanda, mas logo pegou avião (ou viajou pelos ares invisíveis da Internet…) até a Lisboa do Buraka, banda que lançou ano passado o álbum, Black Diamond.

Essa mescla entre uma musicalidade angolana e uma tecneira européia gera uma fenômeno musical-cultural que se assemelha ao que foi o funk carioca no Rio: música de quebrar-pescoço para ser tocada nos subúrbios em festas arrasadoras. Se há alguma “revolução” sonora proposta aqui, parece ser essa: o retorno à simplicidade reta e desavergonhada e um hedonismo popular sem freios e que não prescinde da revolta e do protesto. Destaque para a cada vez mais “hip” M.I.A., rapper que faz os vocais da canção “Sound Of Kuduro”. Por soar mais tribal que hi-tech, mais “popularzão” do que emanado das elites, o Buraka Som Sistema é uma prova de que os despossuídos da Europa estão ganhando voz assumindo as armas que lhe oferecem as batidas da Era Eletrônica.


Esau Mwamwaya & Radioclit (Foto: Divulgação)

Já o Radioclit fazendo time com Esau Mwamwaya é um experimento de miscigenação que foi tentado pouquíssimas vezes na história do pop: qual foi a última vez que você ouviu falar de uma dupla de DJs europeus (um francês e um sueco) que, ao invés de pegar como parceiros musicais seus amiguinhos do Primeiro Mundo, vão pescar no Quarto Mundo por um “PARCEIRO DE BANDA”? Esau é um cantor de Malawi que migrou para Londres, onde fez time com o duo Radioclit. Num mundo digital onde vão proliferando os mash-ups, remixes, apropriações livres e plágios, numa orgia sônica cada vez mais bagunçada, o disco traz explícita a vontade de reler músicas alheias com novos olhos. Há por aqui espectros de Michael Jackson (“Will You Be There”) e Beatles (“Birthday”), além de artistas bem mais recentes como Vampire Weekend e Architecture in Helsinki.

A voz de Esau é groove suave e malemolência, algo que se insere entre um reggae e um soul, temperados em solo africano, e o disco The Very Best (uma mixtape que prenuncia o álbum de inéditas que virá em 2009) é mais para ser ouvido do que para ser dançado. Só mesmo a globalização para permitir isso: excêntricas mesclas sônicas que renovam a música das potências ocidentais com um “adubo” terceiro-mundista.

E isso parece ser só o começo de uma onda de África que virá dar as caras cada vez mais nas praias da música pop contemporânea. Não que isso seja algo novo, já que a dívida cultural que o mundo ocidental possui em relação ao continente africano também é imensa. É só pensarmos que tanto o jazz quanto o blues, que tanto marcaram a música da América, nasceram com corações e pulmões emprestados da África, sendo óbvia a maneira crucial com que os ritmos, requebros e batidas daquele continente moldaram toda a história dos principais estilos musicais do século – inclusive o rock and roll. Claro que não há comparação possível entre dois fenômenos tão diferentes, mas é o que basta para que os preconceituosos não fiquem tão convictos de si quando sustentam, com pressa demais, que a música africana “não presta”. Pense bem: quem disse que todas as bandas de rock que você ama não são tão sensacionais devido à influência africana que entrou, décadas e décadas atrás, nas veias da América e da Inglaterra, realizando tantas benfeitorias?

Pois a África está em alta, no cinema e na música, nos noticiários e nos jornais, e é bom que seja assim: para que os escândalos de miséria, epidemia e guerra que ali existem, sendo reconhecidos, possam ser remediados, e para que as belezas culturais e naturais possam, através dessa queda geral de fronteiras instaurada pela globalização, circular mundo afora, brotando e frutificando.

SAIBA MAIS
Buraka Som Sistema: www.myspace.com/burakasomsistema
Esau Mwamwaya & Radioclit: www.myspace.com/theverybestmyspace

Buraka Som Sistema – “Sound of Kuduro”

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The Very Best – “Kamphopo”
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