O EXAGERO DAS CORES
Trajétória musical dos Beatles narra história de amor nos conturbados finais dos anos 60
Por Raphaella Spencer

Poucas trajetórias musicais são tão coesas e falam tanto sobre a época em que foram criadas quanto a dos fab four de Liverpool. De um lado a Guerra do Vietnã, a segregação racial e o moralismo, do outro a efervecência artística, a liberação sexual e muitas viagens psicodélicas. Across the Universe (2007), filme de Julie Taymor, consagrada diretora de espetáculos teatrais e também responsável pelo filme Frida (2002), junta num só filme, 34 músicas dos Beatles que se transformam no roteiro da história de amor entre um jovem artísta da plebe britânica, Jude (Jim Sturgess) e uma garotinha rica do “American dream” Lucy (Evan Rachel Wood). Os dois se conhecem pelo intermédio de Max (Joe Anderson), irmão de Lucy, ele resolve largar a faculdade e assim os três se mudam para Nova York onde vão viver as dores e as delícias de uma das épocas mais complexas da história e cultura americanas.

Essa é a receita “anti-crítica” da diretora Julie Taymor em seu mais novo filme. A história tem tudo para ser piegas, (afinal de contas, amor adolescente nem sempre dar samba, aliás rock) mas apesar disso, o talento dos jovens atores que cantam com vozes cativantes e humanizam cada detalhe das letras das canções dos beatles, conseguem nos levar um pouco além desse pano de fundo inicial, inserindo o espectador na mentalidade de uma época.


Filme é como um videoclipe que encontrou o rumo

Com um orçamento confortável, a diretora Julie Taymor pode criar para cada música um universo todo particular. São tantos cenários, máscaras, fantasias, grafismos, fotografias, cores e efeitos de pós-produção que acaba ficando entre esses aspectos o melhor e o pior do filme. O melhor, é que é possível ver a trajétória de uma estudiosa das artes plásticas com muita influência da cultura oriental. Também é possível evidenciar no longa uma cineasta que transporta para a tela uma experiência adquirida como diretora de teatro na ambientação, cenografia e direção de arte, sem descuidar dos aspectos cinematográficos, resultando em trechos com a dose certa de humanidade e plasticidade.

Mas os exageros também ficam a cargo dos aspectos estéticos, que as vezes parecem ser mais importantes que a história contada. O resultado é certa descontextualização, num filme em que quase o tempo todo as músicas são cantadas por seus protagonistas, contando suas próprias histórias.

Torna-se meio incomodo trechos como o da interpretação de “Being For The Benefit of Mr. Kite”, interpretado pelo comediante inglês Eddie Izzard. Nesse momento, a história dá lugar a uma lona de circo, a fantoches e seres azuis gigantes multiplicados em animação, espécie de exagero pop sem muita justifictiva narrativa, a não ser a de inserir na história uma versão de um videoclipe da diretora para mais uma das originais músicas dos Beatles. O que não é o caso da participação do cantor Bono Vox, que interpreta “I am the Walrus”, na pele do Dr. Robert, um hippie doidão que enbarca Jude, Lucy e seus amigos numa viagem regada a muito ácido, traduzida em cores quentes e psicodélicas por Julie Taymor.

Across the Universe é um filme de uma plasticidade impecável, entretenimento completo, é como juntar num só filme grandes videoclipes e dar a eles uma ordem narrativa e personagens que teêm suas histórias contadas no decorrer dessas sequências. Com todos os igredientes de um filme pop, mas com uma complexidade visual que exige um pouco mais do espectador comum. Nisso, a diretora logrou resultados comparados aos de Tim Burton em suas obras, especialmente em O Peixe Grande (2003), em que as histórias de um homem são o mote para a criação de cenários fantásticos, mas como também acontece nesse filme, tanta grandiosidade deixam um pouco em segundo plano o fator humano de seus enredos.

Em Across the Universe , as vezes o ditado “menos é mais” foi esquecido e as imagens associadas às letras das músicas acabam desviando a atenção de suas próprias letras, por si só belas poesias. Mas a humanidade do filme volta com força em momentos como o a capela em que Jude declara seu amor com “All you need is love”. Pop, ousado, as vezes piegas, as vezes inovador, sempre bom, esses são os Beatles e nesse mesmo caminho segue Across the Universe.

ACROSS THE UNIVERSE
Julie Taymor
[EUA/Inglaterra, 2007]

NOTA: 7,5

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