A EPOPÉIA LIBINOSA DE NOLL
Escritor explora limites da narrativa homoerótica em novo livro
Por Talles Colatino

ACENOS E AFAGOS
João Gilberto Noll
[Record, 208 págs, R$ 32]

Que sentimento move um escritor contemporâneo a escrever um épico? A resposta está clara para nós, mas não para o personagem principal de Acenos e Afagos, novo livro do escritor gaúcho João Gilberto Noll, que marca sua estréia na Record. Explico: o romance é escrito em parágrafo único, estrutura de respiração densa, não-linear e que exige do leitor muito mais que atenção ao jogo de palavras. Quem conduz essa narrativa bruta é um igualmente pouco lapidado (no sentido psicológico, não estético) homem que construiu sua vida à base (e em busca) de responder seu neurótico desejo sexual.

E como todo herói viciado, desconstrói seu mundo para modificar uma realidade que ainda não lhe pertence. E para dar voz ao desejo latente de pertencer a essa outra realidade que na verdade ainda não existe, ele parte para uma jornada que vai pôr em prova não só seu equilíbrio emocional, como a caracterização da sua identidade. Um Ulisses (como o de Homero, mas com certos abismos do de Joyce) pornográfico.

Acenos e Afagos tem dos outros livros de Noll a pouca contundência de um personagem atormentado. No caso do protagonista deste, um atormentado pela libido que não encontra limites, nem mesmo nos sentimentos extremos. Um homem casado, pai de um adolescente, que simplesmente não consegue conter seus impulsos sexuais que, entre a distância do aceno ou a proximidade do afago, necessita ser vazado.

O tal personagem é apaixonado por um amigo. Não sabe se desde a infância ou adolescência, mas fica claro desde o início que não se trata de um sentimento, digamos, normal. Ou até seja, já que não exista sentimento que corresponda à prerrogativa da normalidade. O fato é que o sentimento, histérico como muitas paixões, vai dominar a narrativa de Noll, que misturado aos prazeres do personagem, abordados em seus mais íntimos movimentos, vai se transfigurar num enredo extremamente figurativo, no qual prevalece relações homoeróticas que se sublimam da forma mais cafajeste possível.

A única ligação realmente afetiva do personagem principal é com esse tal amigo, que se refere como “o engenheiro”. Essa relação é a única que preenche a vida de um homem que vai se desprovendo de identidade até chegar ao mais relevante ponto de virada do romance: a sua dualidade sexual. Como os épicos se permitem, os episódios se sucedem em um compasso que beira o fantástico. A já citada narrativa que permite a criação de figuras que extrapolam o limite do realismo convencional e, apoiado nisso, Noll apresenta um Acenos e Afagos, um personagem, que no seu (finalmente) limite vai descaracterizando seu sexo.

Quando finalmente consegue uma relação carnal, sexual e talvez a mais importante para ele, a afetiva, junto ao engenheiro, o protagonista vê suas características masculinas darem espaço para as formas femininas. Na sua insegurança entre ser esquecido ou ser amado pelo homem que agora chama de seu, o personagem aceita essas transformações no seu corpo e sua condição feminina que vai desembocar numa série de revelações em torno do mundo que renunciou por um amor que ele nunca terá certeza que se concretizou de fato. Pelo menos por parte do seu homem, que cada vez mais preenche com silêncio o vazio que ele permitiu que sua vida sempre fosse. E a grandeza do livro reside justamente no reconhecimento desses intervalos que a banalidade do sexo e o amor platônico permitiram existir.

NOTA: 8,5

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