Best-seller da sul-coreana Han Kang teve interferência de sua tradutora na edição inglesa. O caso levantou debate sobre os limites da interferência criativa na tradução literária

costuma ser um assunto complicado. A versão para o inglês de A Vegetariana, best-seller da sul-coreana que foi relançado no Brasil pela editora Todavia em 2018, se tornou alvo de críticas na Coreia do Sul pelas liberdades tomadas pela tradutora britânica Deborah Smith.

O livro recebeu pouca atenção na Coreia do Sul na época de seu lançamento em 2007. Publicado originalmente como uma trilogia, foi bem recebido pela crítica, mas o público em geral considerou a história bizarra e obscura. Isso mudou em 2016, quando o romance foi o primeiro sul-coreano a vencer o Man Booker Prize, uma das mais prestigiadas premiações literárias, e se tornou motivo de orgulho no país. O problema é que, ao lerem a versão traduzida para o inglês, os críticos sul-coreanos perceberam que Deborah Smith havia interferido tanto no livro que passaram a acusá-la de tê-lo reescrito.

Repercussão na Coreia do Sul

No volume 100 da Translation Review, Kim Wook-dong, professor de Literatura Inglesa na Sogang University e tradutor responsável por verter para o

,coreano clássicos como “A revolução dos bichos”, “O grande Gatsby” e “O apanhador no campo de centeio”, acusou Smith de não saber distinguir palavras coreanas básicas, traduzindo “mãos” como “pés”, e de ter mudado o sentido de algumas expressões e gírias, classificando o trabalho da tradutora como “criativo”. Segundo o Los Angeles Times, inúmeros artigos foram publicados na mídia sul-coreana revelando os erros, omissões e embelezamentos cometidos na tradução de Smith, com acadêmicos chegando a afirmar que os leitores ingleses haviam sido traídos.

No mesmo Los Angeles Times, Charse Yun, o professor de tradução e escrita na Universidade de Mulheres Ewha, em Seul, descreveu a tradução britânica como “uma nova criação”. Segundo ele, embora a tradução contenha erros primários, como trocar os sujeitos das frases, “mesmo que Smith corrigisse todos os erros óbvios, não mudaria o fato de ela ter ‘poetizado’ o romance. Em termos de tom e voz, [a edição inglesa de] A vegetariana é muito diferente da original”.

“Smith amplifica o estilo conciso e quieto de Han Kang e o embeleza com advérbios, superlativos e outras palavras que não aparecem em nenhum lugar do original. Isso não acontece uma ou duas vezes, mas em todas as páginas. Comparando os dois, fica claro que Smith tomou liberdades significativas em seu texto”.

A vegetariana: português X inglês

Ciente de toda essa controvérsia, eu decidi ler duas edições de A Vegetariana: a versão em inglês, traduzida por Deborah Smith, e a nova tradução em português, feita pelo coreano Jae Hyung Woo. De fato, a diferença é gritante. Se em inglês era possível notar intuitivamente o embelezamento do texto, permeado por frases longas e floreadas, na edição brasileira eu percebi uma prosa mais direta. Em um tom mais seco, em português a história corre de forma mais rápida, enquanto em inglês há a criação de uma atmosfera que é envolvente na mesma medida em que também ajuda a desviar a atenção do leitor.

A história em si permanece a mesma. Porém, gostaria de pontuar duas modificações que me chamaram a atenção.

Soldados japoneses

Durante a primeira parte do romance, narrada pelo marido da protagonista, ele diz em determinado momento: “Durante a penetração, ela ficava olhando para o teto, em meio ao escuro, com uma expressão vazia, como se fosse uma escrava sexual em tempos de guerra”.

O mesmo trecho é descrito de maneira diferente em inglês. Em uma tradução livre: “Assim que eu penetrava, ela ficava deitada no escuro encarando o teto, com o rosto impassível, como se ela fosse uma mulher de conforto arrastada contra a sua vontade, e eu fosse o soldado japonês exigindo seus serviços”.

Ou seja, na versão britânica há uma menção explícita a um dos crimes de guerra cometidos pelo Japão imperialista: o sequestro de mulheres coreanas e chinesas, classificadas como “mulheres de conforto”, para serem sexualmente escravizadas pelos soldados japoneses.

Massacre de Gwangju

A outra modificação é ainda mais impressionante: na terceira parte, em que o ponto de vista mostrado é o do cunhado da protagonista, há uma cena em que ele procura a ajuda de uma amiga para um projeto artístico. Em português ficou assim:

“Mas não parece seu estilo, Hyung. Acha mesmo que consegue expor isso? Afinal, seu apelido era sacerdote…Um sacerdote com consciência, um religioso devoto…Eu gostava disso em você”.

Já em inglês, também em tradução livre, a amiga de Hyung diz: “É uma reviravolta e tanto. Você conseguiria exibir algo assim? Seu apelido costumava ser ‘o sacerdote de Maio’, afinal. Depois de Gwangju, sua arte era tão engajada, quase como se você estivesse atônito por ter sobrevivido ao Massacre de Maio. Você parecia tão sério, tão cético…tudo muito romântico, admito”.

No trecho mencionado acima, há referências ao Massacre de Gwangju, um acontecimento histórico importante para a Coreia do Sul, acontecido na cidade natal de Han Kang. Ao que tudo indica, há motivos para acreditar que os acréscimos foram incluídos por Deborah Smith e não fazem parte da obra original.

Em um ensaio publicado na revista Asymptote, Deborah Smith afirma que frases que inclui em suas traduções de Han Kang são imagens “tão poderosamente evocadas pelo coreano que às vezes eu me pego procurando por elas no texto original em vão, convencida de que estão ali em algum lugar, de tão claras que são na minha cabeça”. Ao se defender das críticas, a tradutora afirmou que considera o trabalho de tradução como uma colaboração entre tradutor e autor. De fato, seu trabalho em A Vegetariana foi encarado por alguns como uma adaptação da obra original.

Trauma e resistência

Se eu tivesse que definir A Vegetariana, diria que é um livro sobre abuso e trauma. Não à toa, ele flerta com elementos muito comuns no terror: os pesadelos, o sangue, a loucura. Temos Yeong-hye, uma protagonista silenciosa, que nunca tem a oportunidade de contar a própria história e nunca diz o que está pensando. Uma mulher comum e inofensiva, qualidades convenientes aos olhos de seu marido medíocre e intransigente. De repente, ela toma a decisão de se tornar vegetariana, em uma época em que isso ainda era visto como algo peculiar.

Essa decisão gera uma reviravolta na vida da protagonista e em todos à sua volta. Aos poucos vamos descobrindo que se tornar vegetariana está ligado a algo muito mais profundo e inconsciente: o horror a tudo que é animal, violento e sanguinário. Este horror está diretamente ligado a uma vida inteira passada como subalterna, submissa a homens agressivos e abusivos. E este é mais um detalhe da história de Han Kang: seus personagens masculinos são todos egoístas, indiferentes, violentos, autoritários e predadores sexuais.

Se tornar vegetariana é a primeira decisão que Yeong-hye toma por conta própria, reivindicando poder de escolha e liberdade. Porem, sua ousadia em resistir e não voltar atrás vai ser castigada com ainda mais violência, até que ela seja abandonada quase completamente. A única pessoa que permanece ao seu lado é a irmã, uma mulher passiva e conciliadora, que secretamente entende que ela poderia ter surtado no lugar da irmã.

A Vegetariana é um romance que trata do trauma de mulheres violentadas por uma sociedade profundamente patriarcal. O livro mostra como o patriarcado adoece as mulheres até o ponto em que elas se desconectam da própria humanidade. Para Yeong-hye, essa desconexão a leva a buscar consolo e refúgio em algo mais primitivo e em desacordo com o que é considerado normal e desejável. Segundo Han Kang, a personagem foi inspirada por uma frase do poeta modernista Yi Sang, cujo trabalho foi marcado pela violência e do imperialismo Japonês. Yi Sang descreveu a reclusão catatônica como um sintoma da opressão: “Eu acredito que os humanos deveriam ser plantas”.

“Foi então que percebi que ela tinha uma expressão indiferente, como a de um monge em contemplação. De quanta raiva ela teve que se livrar ou reprimir para chegar àquela expressão? Seu olhar chegara a causar medo.”

Voltando ao tema da tradução, é sabido que Deborah Smith e Han Kang são amigas e que a autora aprovou a tradução inglesa de seu romance. Ainda assim, esse episódio deixa em aberto algumas questões: o romance premiado foi o escrito por Han Kang ou a versão de Deborah Smith? Uma tradução fiel teria alcançado o mesmo feito? É possível dizer que a tradução inglesa representa a literatura sul-coreana no ocidente? Uma tradução de uma língua tão distinta como a coreana precisa ser completamente fiel ou pode tomar liberdades para facilitar a fluidez da leitura?

Tentei entrar em contato com o Jae Hyung Woo, que traduziu A Vegetariana para o português, para saber o que ele pensa sobre esse debate. Embora a editora Todavia tenha sido bastante solícita, o tradutor não respondeu o contato.

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