OS HORRORES DE DENTRO DE CASA
Hideshi Hino, um dos autores malditos do mangá japonês provoca o leitor a desvendar as referências por trás de seus quadrinhos malditos
por Paulo Floro

A SERPENTE VERMELHA
Hideshi Hino

[Zarabatana Books, 192 págs, R$ 24,90]
[Recomendado]

Filho de imigrantes japoneses que trabalhavam na Manchúria, Hideshi Hino nasceu na China, em 1946, no finzinho da Segunda Guerra Mundial. Sua família, hostilizada pelos chineses que desejavam vingança pelos anos de dominação nipônica, precisou fugir para o Japão, na época arrasado por anos de conflito.

Este conturbado período pós-guerra marcou definitivamente Hino, que utilizou esses elementos em sua obra, um das mais importantes do mangá moderno. Lançado pela editora Zarabatana, A Serpente Vermelha é um dos melhores livros para quem deseja se iniciar no horror mangá deste autor. Enclausurado em uma casa cercada por uma floresta intransponível, um garoto, de horripilantes olhos esbugalhados, tenta fugir de casa a todo custo, sem sucesso, aterrorizado constantemente pelo comportamento de sua bizarra família. Sua avó acredita ser uma galinha, e choca ovos que seu pai traz todos os dias para ela. Em seu galinheiro, o pai extravasa sua personalidade sádica, degolando galinhas “quebradas”, que não põem ovos em quantidade suficiente. A irmã é obcecada pelos insetos que alimentam as galinhas, e se delicia escondida a brincar com lagartas e centopeias em seu quarto. A relação entre a mãe do garoto e seu avô, é ainda mais doentia. Com um enorme tumor no rosto, ela é obrigada a esfregar ovos naquela carne crescida e pisar até espremer um fétido pus. Não é de se estranhar que o assustado menino tentasse fugir pela floresta até seus pés sangrarem.

Narrado pelo garoto (não é dito o nome dele em nenhum momento), a história assume um ritmo claustrofóbico, e não são poucas as tentações em fechar o livro. Vítima de uma maldição, uma série de fatos horríveis acontece com sua família, o que fará o pobre menino desejar de volta todos os horrores rotineiros a que estava acostumado. Uma serpente vermelha irá servir de ponto-chave da narrativa, causando terror nos personagens, e abrindo um portal para um mundo infernal, sangrento e horripilante.

O horror japonês é um gênero rico de referências. Uma das principais é a decadência do Japão pós-Segunda Guerra Mundial. Suehiro Maruo, outro mangaka deste gênero, utiliza bem deste elemento, com a diferença que aposta numa linguagem erótico-grotesca para retratar a degradação de seus personagens. Hino é mais direto e cru, e por isso, mais repulsivo. A Serpente Vermelha pode ser lido como uma delirante narrativa de terror, com o leitor tenso durante toda a leitura ou pode ser entendida como um reflexo da bomba atômica. Hino passou a infância neste cenário, que gerou seres deformados, paisagens desoladas, decadência moral, corrupção e outros males sociais.

É por isso que a história deste mangá é tão rica. Com uma narrativa ágil, mesmo com um história repulsiva, é quase impossível desviar a atenção da leitura. O traço é realista nos cenários, mas seguindo a tradição do mangá de horror, sofre muita influência do surrealismo, deformando a aparência dos personagens de modo a refletir uma ideia sem precisar de muito texto. É o caso do garoto de olhos esbugalhados, que nos transmite terror e angústia o tempo inteiro e as feições clássicas da irmã, cínica, tão à vontade em meio ao cenário de horror que se instaura na casa, entre outros exemplos.

Em seu terceiro lançamento, a Zarabatana Books, nova editora de quadrinhos paulista, fez uma ótima edição, com uma boa impressão e um bom preço também. Não faria mal uma pequena introdução sobre Hideshi Hino – que já teve o livro Panorama do Inferno publicado aqui pela Conrad – ou sobre o Horror Mangá. A editora promete mais títulos do autor ainda para este ano.

NOTA: 9,0

Leia Mais: O Horror de Suehiro Maruo

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