HOMEM, PLANTA E MONSTRO
Clássico dos quadrinhos, Monstro do Pântano de Alan Moore ganha reconhecido tratamento editorial no Brasil
Por Ricardo Malta


Após ser vítima de uma explosão, e ter seu corpo coberto pelos produtos químicos com que trabalhava, Alec Holland vê-se transformado numa criatura meio homem, meio planta. Criado por Len Wein e Bernie Wrightson, a primeira aparição do Monstro do Pântano (Swamp Thing , no original) foi em House of Secrets # 92, lançada em junho/julho de 1971.

A primeira série mensal do personagem, Swamp Thing, teve início em outubro/novembro de 1972, e contou com o ótimo trabalho de sua dupla criadora nas dez primeiras edições. Depois, com a substituição de Wrightson por Nestor Redondo, os desenhos continuaram num bom nível, mas com a posterior saída de Wein e a passagem de roteiristas como David Michelinie, Gerry Conway e David Anthony Kraft, a revista afundou de vez e foi cancelada no número 24, lançado em agosto/setembro de 1976.

Após o lançamento do filme dirigido por Wes Craven em 1982, o título foi relançado no final de maio deste mesmo ano como The Saga of the Swamp Thing. Contando com textos de Martin Pasko e arte de Tom Yeats, o novo Monstro do Pântano não tinha quase nada do misto de horror primal e clima de filme B da época de Wein e Wrightson.

House Of Secrets# 92Dezenove meses mais tarde, Pasko é substituído por um autor inglês, que sequer havia publicado algo nos Estados Unidos. Seu nome era Alan Moore. Em janeiro de 1984 sai nos Estados Unidos, The Saga of the Swamp Thing # 20, o primeiro quadrinho “americano” roteirizado por ele.

De cara, o autor pega o que Pasko havia utilizado, e de certo modo dá um fim a tudo isso. A começar pelo próprio Monstro do Pântano, que é morto ao final da edição pela Corporação Sunderland. Esta história tem o sugestivo nome de Pontas Soltas (Loose Ends).

Com total carta branca por parte da DC Comics, Moore começa a pegar pesado mesmo na edição seguinte, que traz a antológica Lição de Anatomia (The Anatomy Lesson). Trata-se de um conto de horror moderno que começa com uma narração em off de Jason Woodrue (também conhecido como Homem-Florônico). É um thriller clássico na mais elogiosa acepção da palavra, com direito a uma revelação que mudará tudo o que sabemos sobre o Monstro do Pântano. Ao invés de contar a história sobre um homem que metamorfoseou-se num monstro, o roteirista altera a perspectiva para a de um monstro que descobre ter pensado durante anos ter sido humano, quando na verdade nunca o foi. Tão simples quanto genial, essa edição é uma pequena obra-prima por si só.

E isto não só pelo texto, mas também pela soberba arte de Steve Bissette e John Totleben. Desenhista e arte-finalista, respectivamente, dão às páginas um tratamento grandioso. Parece que todas estão conceitualmente interligadas, e são tantos os pequenos detalhes apresentados, que cada imagem pode ser vista e interpretada de vários modos, e ainda assim continuar a surpreender em novas leituras.

A saga tem um visual tão fantástico, que num primeiro momento a Pixel fez uma pesquisa informal entre os leitores, para decidir se a publicaria colorida ou em preto-e-branco. Isto foi feito porque há alguns anos a Brainstore lançou encadernados do personagem em preto-e-branco, e em vários momentos a arte chegava a ser ainda mais espetacular do que no original. No entanto, como a série nunca havia sido publicada por aqui colorida e em formato americano, optaram por esse modelo, que agrada muito mais à maioria dos leitores.

Depois de Lição de Anatomia, Moore faria um trabalho progressivamente notável com o personagem, que entre tantos pontos altos, tem a sua ida até o Inferno em busca de sua amada, sua perambulação pelo mundo encontrando vampiros aquáticos, o Parlamento das Árvore e John Constantine. Ele ainda destroçaria Gotham City, teria relações sexuais com aliens ao som de David Bowie e conheceria deuses das mais diferentes espécies em suas viagens pelo espaço. O derradeiro trabalho do roteirista com o personagem seria no número 64, lançado em setembro de 1987.

Deixando isto como aperitivo do que está por vir, é hora de se ater apenas a este primeiro volume de A Saga do Monstro do Pântano. A Pixel compila neste encadernado The Saga of the Swamp Thing # 20 a 27. Por sinal, o número 20 nunca havia sido publicado no Brasil, e sequer fez parte de qualquer coletânea posterior do personagem mesmo nos Estados Unidos, o que confere um notável ineditismo a este lançamento.

O primeiro arco de histórias está entre os números 21 e 24, aonde presenciamos a “ressurreição” do Monstro do Pântano, seu retorno aos pântanos da Lousiana, a sua batalha interior para compreender os novos fatos a que foi apresentado e a sua batalha com Jason Woodrue.

Já o segundo arco está nas edições 25 a 27, e mostra o demônio Etrigan à procura de uma criatura que escapou do Inferno por meio da magia dos homens. Também surgem os primeiros indícios de uma maior profundidade no relacionamento entre Alec e Abby.

O trabalho gráfico da Pixel está excelente, principalmente por dar a este verdadeiro marco das HQs um tratamento condizente com seu conteúdo. Capa dura, formato americano e papel couché, que dá uma beleza e vivacidade muito mais amplas às belíssimas cores que essas histórias possuem. Fora isso, ainda conta com notas explicativas e uma introdução escrita pelo próprio Moore.

A editora planeja lançar neste formato todo o período de Moore à frente do título, e o que resta é a ansiedade para que os próximos volumes saiam o quanto antes.

Vale dizer que anos mais tarde da publicação original dessas histórias, em 1993, seria fundado pela DC Comics o selo Vertigo. A intenção era reunir títulos voltados para um público mais maduro, e que por conseguinte tivessem uma maior liberdade criativa. Ainda que não-oficialmente, revistas como Hellblazer e Sandman já há algum tempo faziam parte dessa linha mais adulta de quadrinhos, enquanto que Monstro do Pântano sempre foi considerada a pedra fundamental para esta renovação estética e narrativa que até hoje rende excelentes obras.

O Monstro do Pântano de Alan Moore, figura entre as melhores HQ’s já produzidas, e com toda a certeza é também um dos grandes trabalhos ficcionais do século 20. Abrace-o e deixe-se ser envolvido.

A Saga do Monstro do Pântano # 1
Alan Moore (texto), Steve Bissete, Dan Day e John Totleben (arte)
[Pixel Media, 192 páginas, R$ 54,90]

NOTA: 10

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