ENCENANDO A CATARSE
Documentário fictício sobre a morte de Bush tem premissa interessante, mas seu resultado final é limitado
Por Júlio Probo

O presidente dos Estados Unidos é o candidato ideal para estar no alvo das mais criativas teorias conspiratórias, especialmente após o 11 de setembro de 2001.O falso documentário A Morte de George W Bush, originalmente produzido para a TV britânica, aborda não apenas o assassinato de Bush com dois tiros certeiros durante uma visita a Chicago mas, principalmente, os possíveis desdobramentos e elocubrações que tal atentado suscita.

Utilizando um vasto material contendo cenas reais envolvendo protestos violentos contra o governo Bush pelas ruas de Chicago, o “mocumentário” (documentário com base fictícia) exibe grande verossimilhança ao revelar o aparato aparentemente infalível de segurança do homem mais poderoso do planeta e a vulnerabilidade desse mesmo aparato diante da turba enfurecida.

Burlando a comicidade explícita, a mão inglesa do diretor Gabriel Range consegue imprimir credibilidade à caracterização dos atores que interpretam os membros do staff presidencial . Entremeados por cenas de noticiários da TV, os “entrevistados” funcionam como condutores da ação ricocheteando o real e a farsa, deixando no espectador a suspeita sobre os limites entre jornalismo e dramaturgia. Conceito similar àquele adotado pelo já clássico (igualmente britânico mas deliberadamente debochado e corrosivo) Borat de Larry Charles.

A Morte de George W Bush ganha ritmo de thriller quando centra fogo nas especulações subsequentes ao assassinato. O espólio que o presidente da nação mais rica do mundo deixa aos seus asseclas está eivado de arrogância, reflexões levianas e atitudes arbitrárias, evidenciando, na ficção, o que o mundo inteiro já suspeita: a Guerra do Iraque é uma ferida
aberta e pustulenta que atormenta o cotidiano de muitos cidadãos americanos, sejam eles dissidentes do governo, veteranos de guerra traumatizados ou imigrantes a granel, especialmente os mulçumanos, relegados à categoria de “culpados preferenciais”.

No afã de corroborar as suspeitas de que organizações criminosas afegãs deram suporte ao atentado contra o presidente Bush, todo um organismo policial, visivelmente paranóico e aturdido, é adestrado para oferecer a cabeça do “inimigo” histórico mais conveniente do momento. Evidências são forjadas, provas inconclusivas são imediatamente aceitas, suspeitos com motivos mais convincentes são descartados. Tramóias cometidas em nome da soberania nacional americana.

A Morte de George W Bush tem uma premissa bem mais atraente que o seu resultado final na tela grande. Um tanto comprometido, sobretudo, pelo formato de TV para o qual foi originalmente concebido e laureado, inclusive, com o prêmio Emmy (o oscar da televisão) em 2007. E, apesar do que o ruidoso título em português faz supor, o filme é apenas uma das tantas teorias conspiratórias que a criatividade humana precisa excretar na tentativa,
catártica, de alvejar a tirania mortalmente.

A MORTE DE GEORGE W. BUSH
Gabriel Range
[Death Of A President, ING, 2008]

NOTA: 7,5

Trailer

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