O LIBELO DE UM VELHO SAFADO
Livro do cantor Nick Cave é uma odisseia de violência e sexo recheada de referências pop

Por Paulo Floro
Editor da Revista O Grito!

O músico australiano radicado na Inglaterra, Nick Cave, conseguiu transformar seu anti-herói Bunny Munro em um best-seller internacional. Fez isso dando vazão a obsessões relacionadas a sexo, violências e mais outras tantas coisas presentes na mente de uma mente cínica como o protagonista. É um ensaio sobre a canalhice, um Sex and The City dos homens irascíveis. Na trama, Bunny é um vendedor de loções que retorna para casa depois de muito tempo fora. Encontra sua mulher Libby morta – se matou após meses gravemente deprimida – e seu filho de apenas 9 anos perdido numa casa bagunçada.

Ele então viaja com o filho para o sul da Inglaterra em uma viagem que irá revelar muito da relação dos dois. A partir desse momento o livro deixa de focar na mente obcecada de Munro, sempre pensando em mulheres, sexo, morte para tentar compreender o universo do pequeno Bunny Junior e até mesmo o pai de Bunny, o ser igualmente desprezível que iniciou a linhagem.

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Bunny tem o tempo todo premonições de sua própria morte. São sonhos e alucinações que fazem uma ponte com o trabalho musical do Cave, que sempre se debruçou sobre esses assuntos tenebrosos. E se tem um assunto que o cantor entende, é morte. Dependente de álcool e destruído por anos de abuso de cocaína e cigarros, o protagonista é uma alegoria da condição do homem contemporâneo, destruído, morto para o mundo, cínico em relação a tudo.

Alguns podem perceber uma apologia ao homem misógino, mas Bunny Munro é uma construção honesta desse tipo de homem que existe e que em algum momento é parte da condição masculina de muita gente. Bunny idealiza as mulheres ao mesmo tempo em que as despreza. Sonha com sua mulher recém-saída do banho, mas a odeia profundamente. Sente tesão por seus peitos ao vê-la morta pendurada na janela. Cada página de A Morte de Bunny Munro é obscena, mas sempre intercalada com a proximidade da morte e pela atração e repulsa ao sexo oposto.

A grande sacada de Cave é permear sua obra de referências pop. Numa das passagens do livro, ele faz uma ode à Kylie Minogue, conterrânea com quem já fez dueto, e a homenageia com uma narrativa cheia de obscenidade que culmina com uma punheta à beira da estrada. Avril Lavigne, Beyoncé e Britney Spears também aparecem na obra. A preocupação pop na experiência literária de Cave fez desse livro um projeto multimídia, com um audiobook e uma trilha sonora composta em parceria com o compositor Warren Ellis.

Bunny está velho e morrendo. Talvez Cave queira dizer que o mundo de seres como esse está sumindo. Ou talvez queira fazer uma provocação nessa relação entre masculino e feminino. Há ainda outra leitura da obra, da ligação entre os Munro. O garotinho, mesmo sendo sensível e diferente do pai, parece mostrar que logo irá sucumbir à inevitabilidade de ser como seu pai. Uma prisão para homens cheios de remorso e sexo.

Pop e Trevas
Nick Cave escreveu seu primeiro em 1989, And The Ass Saw The Angel, ainda inédito no Brasil. Sua literatura é muito comparado com sua carreira musical, iniciada nos anos 1980. Os temas se conectam: morte, sexo, dor. E uma característica em particular se sobressai, a de tratar tudo com muito desencanto, com humor negro, até. O músico chegou a morar em São Paulo durante o tempo e teve até um filho por aqui, em 1991.

Sua obra é o melhor do que podemos apreciar da ligação do rock com a literatura.

A MORTE DE BUNNY MUNRO
Nick Cave
[Record, 352 págs, R$ 50]

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