ALMODÓVAR CRU E MORDAZ
Lei do Desejo retorna ao Recife depois de quebrar recorde de público numa sessão de arte
Por Rafael Dias

É curioso perceber certas singularidades nos cinemas tipo multiplex. Normalmente, os filmes (em sua maioria, blockbusters) entram em cartaz, tomam cinco a sete salas de exibição e, quatro semanas depois, quando não antes, despencam em bilheteria e são enxotados para seções escusas de DVDs nas locadoras. É um produto de consumo imediato, instantâneo, divertido e fugaz como uma pipoca de saquinho com manteiga. E depois, todos esquecem. São pouquíssimos os que ficam na retina por um bom tempo e nos fazem querer ver e rever, como é o caso do ótimo A Lei Do Desejo, do cineasta espanhol Pedro Almodóvar.

Produzido em 1987, durante a fase barroca e crua de Almodóvar, A A Lei Do Desejo volta a entrar em cartaz no Recife 11 anos depois de cumprir uma temporada de êxito na sessão de arte dos extintos cinemas Veneza e Recife 2. O filme carrega a láurea de ter sido o filme mais visto de toda a história da sessão de arte da cidade, com a impressionante marca de 2.972 espectadores – à frente de A Rainha Margot, de Patrice Chéreau (2.162) e As Rosas Selvagens, de André Techiné (1.492). Um número espetacular para um filme alternativo e controverso, considerado um dos mais fracos da filmografia almodovariana, porém decerto um de seus mais ácidos. O filme retorna em cópias remasterizadas com sessões-relâmpago no Multiplex Tacaruna (dia 19), Boa Vista (23 e 24) e UCI Ribeiro Recife (26 a 29).

O retorno tem ainda mais uma curiosidade. Polêmico, o filme só foi lançado oficialmente no país nove anos depois da estréia na Espanha. Por conter cenas de sexo gay explícitas, sodomia e violência, a produção sofreu restrições nos EUA e no Brasil sob boicote das classes mais puritanas. Mas o zum-zum zum, é claro, também serviu para impulsionar a distribuição do filme no mercado negro e criar um frisson entre os cinéfilos, antes que chegasse às telonas. Grande parte do afã se deve à presença de Antonio Banderas na película, no auge dos seus vinte anos, em cenas de nudez e sexo com outro homem. Em outra cena, a atriz Carmen Maura insinua um ato sexual com uma “mangueira”. Tipicamente almodovariano.

Embora muito críticos prefiram a segunda fase de Almodóvar, com seus filmes mais maduros e refinados esteticamente, é preciso reconhecer que o diretor espanhol exibia uma linguagem ferina e mais afiada, com tiradas sarcásticas engenhosas, nos anos 80. Eram filmes com baixo orçamento, atuação oscilante e qualidade técnica duvidosa, beirando o kitsch. Havia, no entanto, uma anarquia bem-humorada e paródias inteligentes que tornam seus filmes clássicos da cinematografia moderna, como, por exemplo, o excelente Mulheres À Beira De Um Ataque De Nervos (com o qual Almodóvar foi indicado pela primeira vez ao Oscar), O Matador e Kika. Em A Lei Do Desejo, a lógica é a mesma: fazer filmes de roteiro ágil que retratam uma Espanha suja, passional e underground.

A crítica aos modelos arcaicizados de família é uma tônica dominante no filmes de Almodóvar. Nesta obra, o recorte não poderia ser diferente. A trama é centrada na vida de dois irmãos que seguem rumos distintos. O primeiro é Tino, um homem que, após sofrer abuso sexual do pai quando criança, decide se submeter a uma operação de troca de sexo. Para fazer o papel, Almodóvar convida não um ator, mas uma atriz, mais especificamente Carmen Maura, sua diva-mor, que encarna um travesti de temperamento complicado. A escolha só faz atiçar a polêmica em torno do filme. Além disso, Tino tem uma filha adotiva, não consegue se envolver com os homens e sonha em ser uma grande estrela de cinema, com o apoio do irmão Pablo (Eusébio Poncela), roteirista e diretor de peças e filmes gays. Em uma festa de lançamento do filme, Pablo conhece Antonio (Antonio Banderas), por quem irá desenvolver uma paixão obcecada e doentia, que será interrompida por um crime hediondo.

Em alguns momentos, A Lei Do Desejo lembra Má Educação não só pela temática queer, mas também pela influência da estética noir, de mistério e romance policial. Não é um dos roteiros mais bem trabalhados de Almodóvar, mas o humor está lá, afiadíssimo. O próprio diretor, aliás, aparece em uma das cenas fazendo um ator de ópera dramática com peruca e apetrechos. A trilha sonora conta com pérolas como “Nes me quitte pas”, na voz de Maysa. Para os que desconhecem Almodóvar em suas origens, vale muito a pena dar uma conferida.

A LEI DO DESEJO
Pedro Almodóvar
[La Ley deo Deseo, Espanha, 1987]

Nota: 9,4

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