Em um ano marcado pela crise no mercado editorial, é um consolo perceber que a literatura contemporânea passa muito bem. Principalmente no catálogo das editoras pequenas e independentes. Uma dessas joias escondidas é Água fria e areia, livro de estreia da jornalista e dramaturga Vanessa Vascouto, lançado pela Lamparina Luminosa em outubro. O  breve romance conta a história dos encontros e desencontros entre Caroline e Yannis, que se conhecem aos vinte e poucos durante uma estadia da moça pela França e vivem uma história de amor que irá marcá-los profundamente durante toda a década seguinte.

Porém, nem todas as histórias de amor são felizes. Aos poucos, vão se revelando as bases frágeis desse relacionamento, que sobrevive a partir de esperanças e expectativas que só a distância e o silêncio são capazes de proporcionar. “Na distância, é possível viver anos na escuridão do outro. Cada um se compõe do que narra. E, assim, pararam no tempo. À narrativa de ambos não interessava desvelar a crueza dos fatos atuais”.

À medida que o tempo passa, a vida se impõe sobre o casal, fazendo com que a realidade soterre as ilusões românticas e dê lugar à maturidade melancólica de quem se conforma em aceitar aquilo que não pode ser mudado. “Nada lava melhor a gente que água fria e areia”, conclui Caroline. Testemunhar essa perda da inocência é doloroso, e provavelmente irá comover qualquer um que um dia tenha vivido uma história de amor que poderia ter sido e não foi.

“Me interessou tratar, sobretudo, da realidade e da impossibilidade dos sentimentos, do que é agridoce entre suas belezas e limitações”.

A autora costuma apresentar a narrativa como um desromance. “É o romance que não sabe ficar. Pelo menos no contexto Caroline/Yannis essa é uma definição que me parece mais realista, menos arbitrária”, explica. “Me interessou tratar, sobretudo, da realidade e da impossibilidade dos sentimentos, do que é agridoce entre suas belezas e limitações”.

Na entrevista que você confere abaixo, Vanessa Vascouto falou sobre Água fria e areia e também sobre o que pensa sobre o mito do amor romântico, sua relação com a música e seus próximos projetos, que incluem a montagem de uma peça e um livro infantojuvenil.

Divulgação/Lamparina Luminosa

Vi que antes de se dedicar à literatura você trabalhou como redatora e roteirista. Gostaria que comentasse um pouco sobre sua trajetória profissional e a sua relação com a literatura. Escrever romances era algo que já estava nos seus planos?

Acho que de alguma forma sempre esteve, embora só consiga perceber isso agora, em retrospecto – enquanto trilhamos o caminho é difícil ter clareza de onde ele pode nos levar, não?

Eu sempre trabalhei com a escrita, como jornalista, redatora, roteirista, e é algo que eu ainda faço diariamente porque no fim do dia é o que (ainda) paga as contas. Mas olhando pra trás, percebo que sempre foi, ainda é, algo que me força a trabalhar narrativa. E quando tento conectar essas experiências prévias, noto que o que me encanta nelas todas são as histórias, descobrir a melhor maneira de contá-las. Esse é o maior tesão. Então acabo achando que o exercício da palavra narrada em tantos meios foi preparação pra eu começar a ensaiar contar as minhas próprias histórias, a descobrir como narrar o que grita em mim e partir para um trabalho autoral.

A história de Água Fria caminha comigo há anos, levei tempo para descobrir em qual formato ela se desdobraria melhor. No fim das contas, o romance me deu essa liberdade bonita de começar a (me) experimentar enquanto autora, de brincar com o tempo, com a minha voz como narradora, com o desenvolvimento de personagens, com a não-linearidade das coisas, ir e voltar. O papel aceita tudo, afinal, e me escuta de bom grado. Sinto, hoje, que nada me liberta mais do que a folha em branco.

Além de romances, você também escreve peças de teatro e integra o Núcleo de Dramaturgia do SESI-British Council. Podia contar um pouco sobre sua experiência como dramaturga? Está trabalhando em alguma peça no momento?
Como dramaturga me sinto uma autora completamente diferente da autora de Água Fria, por exemplo. É outro jogo. Tem uma pira estética que me fascina – e que estudo como passar para o papel, porque acho que é possível, só não descobri ainda como transpor a barreira dos estilos. Sigo tentando. No teatro o que eu gosto mesmo é de trabalhar mais o caos, a repetição, o beco sem saída, a fatalidade, a angústia, toda uma questão existencial que gira em torno e que cresce a partir da experiência do palco. Atualmente estou entregando um texto que é exatamente isso: uma distopia que mistura física, um drama psicológico e faz uma exacerbação simbólica sobre o ser humano e o descuido. Chama-se A Maior Distância Entre Dois Pontos.

Eu soube do seu projeto com poesia em lambe-lambe e fiquei curiosa para saber mais. Você fazia parte de algum coletivo quando decidiu partir para essa empreitada ou fez tudo por conta própria? É uma ideia bastante original para mostrar um trabalho. Como foi a repercussão?
Foi por conta própria. Na verdade, o que aconteceu foi que eu comecei a querer experimentar a percepção dos outros sobre o que eu escrevia. Na época, o que eu treinava na escrita era a concisão: frases, pensamentos, micro-micro-micro- histórias, tudo muito curtinho. E eu comecei a achar interessante a possibilidade de surpreender com um pensamento inusitado o olhar de quem anda distraidamente, apressadamente pelas ruas.

Queria fugir um pouco da internet também. Acho que é mais difícil ter esse efeito no online. Então pronto: chamei um amigo designer, o Anderson Lopes, para fazer as artes sobre as frases, outros amigos pra me acompanharem nas madrugadas pelas ruas e saí colando. Criei uma hashtag para poder monitorar caso alguém se encorajasse a postar algo e, pra minha surpresa, isso aconteceu repetidas vezes, especialmente por canais de arte e poesia de rua no Instagram, o que acabou sendo um incentivo importante e, finalmente, um primeiro passo para Água Fria e Areia: o primeiro lambe que criei e colei dizia “O barulho do vento somos nós invisíveis voando”, que foi justamente a frase sobre a qual comecei a pensar Yannis.

Vanessa Vascouto/Arquivo pessoal

O seu livro traz na orelha e na contra capa textos assinados pela Fernanda Takai, Bluebell e Susan Sousa, conhecida como Cinnamon Tapes. Eu achei inusitado por serem três artistas que estão mais ligadas à música. Poderia contar como surgiu a ideia de convidá-las e como foi a história por trás de cada convite?
Para as orelhas eu queria uma mulher, artista, da minha geração, que eu admirasse. Queria que fosse alguém das letras também, e nisso incluí compositoras porque composição pode ser poesia. E tem isso: eu sou apegada ao ritmo da leitura – toda vez que li o livro eu o fiz em voz alta, e sempre que lia ouvia uma música que talvez só eu escutasse mesmo. Mas foi a partir desse ritmo, dessa canção que só existe na minha cabeça, que fui atrás de quem achei que pudesse se conectar com o que eu fiz.

A Fernanda era um sonho. Gosto do que ela cria em música e crônicas, sou fã desde adolescente. É alguém que eu acompanho e gostaria de ter perto. A Blubell porque tem na música dela essa pegada jazz francês e, nela, uma aura que eu reconheço, um jeito meio Caroline. Já a Susan porque havia encontrado uma profundidade bonita no trabalho de estreia dela, Nabia, que se conecta com o mar e, por consequência, com o enredo do livro. Para todas escrevi contando do que eu tinha escrito, perguntando se elas teriam disposição e desejo de escrever essa orelha caso gostassem do livro. Mandei o manuscrito e, generosamente, todas me escreveram de volta já com as orelhas escritas. No e-mail que a Fernanda enviou com o texto dela sobre o livro, o assunto foi: “pequeno brinco para a sua orelha”. Uma preciosidade.

Por falar nisso, você declarou que tem uma ligação muito forte com a música. É muito comum escritores se inspirarem em canções para escrever suas histórias – alguns livros trazem até indicação de playlist. Aconteceu algo parecido com você? Chegou a ouvir alguma coisa em especial quando escreveu a história ou se sentiu inspirada por alguma canção?
Não foi algo que ouvi enquanto escrevia, porque quando escrevo fico presa a esse ritmo interno de escrita/leitura e acabo achando que qualquer coisa fora da música clássica me atrapalha, mas sim, há todo um universo musical que, previamente, ajudou a construir a história de Caroline e Yannis: Radiohead, Neil Young, Janis, Alanis, Sarah McLachlan, Fiona Apple… Não tinha pensado em fazer playlist do livro, mas está aí uma ideia que me empolga!

Você disse em entrevista que o enredo de Água fria e areia foi inspirado por uma situação real que ocorreu com uma amiga. O interessante é que, apesar de ser baseado em uma história específica, o que acontece entre eles é tão universal que acredito que a maioria das pessoas é capaz de se identificar. O quanto da sua própria história existe no livro?
A mim ainda parece impossível escrever sobre algo que eu não reconheça, então, sim, tem muito da minha própria história no livro. Não os fatos. Não é uma autoficção, essa não é a minha história. Mas esse sentimento: o do quase, o da perda, construir uma ilusão, desconstruí-la depois… Isso eu conheço. E porque eu conheço, e porque acho que no fim das contas não somos tão diferentes assim, é que pensei talvez fosse algo mais comum do que eu supunha, e que então eu poderia tentar universalizar essa atmosfera na imagem da Caroline e do Yannis. Acho que, de diferentes maneiras, todos carregamos fantasmas na bagagem, não? Uma história do tipo, a dúvida do que poderia ter sido e não foi. “Cadáveres gostosos”, como eu chamo lá no livro.

Vanessa Vascouto/Arquivo pessoal

Você conta uma história de amor interrompido, que não se concretiza. Creio que seja por isso que costuma apresentar o livro como um “desromance”. Essa era a ideia desde o início ou houve um momento em que você se sentiu tentada a dar um “final feliz” para o casal? Pergunto porque hoje em dia se questiona o mito do amor romântico, uma idealização irreal dos relacionamentos amorosos, muito presente nos romances e no cinema – idealização com a qual o seu livro rompe. Esse rompimento foi uma escolha consciente?
Eu sempre quis tratar da não-concretização da coisa toda, então jamais imaginei um final feliz pros dois. Romper com a idealização do amor romântico foi, sim, uma escolha consciente até porque, honestamente, eu não sei onde está esse final feliz! Não saberia nem por onde começar a traçá-lo. Eu comecei pensando em “desromance” como um romance que não dá certo. Mas aí a realidade da coisa: o que é dar certo? Certo pra quem? De acordo com quem? Certo pra quê, afinal? E aí mudei: desromance é o romance que não sabe ficar. Pelo menos no contexto Caroline/Yannis essa é uma definição que me parece mais realista, menos arbitrária. Em Água Fria me interessou tratar, sobretudo, da realidade e da impossibilidade dos sentimentos, do que é agridoce entre suas belezas e limitações.

O subtítulo do livro é O que se passa no invisível e você comentou que se trata de uma história em que o amor está muito presente, mesmo que não haja uma presença física. É curioso porque enquanto eu lia o seu romance, li também uma crônica da Rosa Paula Paiva, chamada “A história que poderia ter sido”, em que ela escreve: “a história que poderia ter sido carrega uma aura dourada difusa e extraordinária, recoberta pela perfeição do que não penetrou o campo da realidade”. É possível afirmar que a história entre Caroline e Yannis perdurou por tantos anos justamente porque ficou no plano das ideias, onde tudo é melhor e mais feliz?
Eu acho que pra uns há mágica no que poderia ter sido, sim. Mas para outros, muitas vezes, o que fica é uma grande frustração em não realizar. Acho que Caroline e Yannis são representativos desses dois lados: pra ela, em boa parte do livro, grita a dor de não conseguir viver essa história. Mas pra ele fica muito menos essa dor e muito mais essa aura dourada recoberta de perfeição, como coloca a Rosa Paiva. Cada um lida com as suas impossibilidades da melhor forma para continuar seguindo em frente. “A nós, de todo modo, não cabe questionar o léxico sentimental de cada um”…

Mas, espera. Me desviei da questão, se a história perdurou porque não aconteceu de fato… Talvez. Acho que a realidade de um relacionamento, o dia-a-dia, pode ser esmagador. Talvez Caroline e Yannis tivessem vivido meses ou anos juntos para depois descobrirem diferenças irreconciliáveis e acabarem se odiando, sim. Talvez, talvez…Essa é a mágica do que poderia ter sido: impossível saber.

Você acredita que as histórias que poderiam ter sido são mais belas do que aquelas que a gente de fato vive?
Não necessariamente. Acho que elas nos iludem e que sobre ilusões podemos tudo, por isso esse é um enredo com o qual nos conectamos com facilidade, acredito eu. Mas penso que há muita beleza nas histórias reais também, vividas no dia a dia, nas superações que demandam, mesmo que eventualmente terminem – tenho particular dificuldade com o “para sempre”. Enfim… acho que tanto “o que foi” quanto o “que poderia ter sido” podem ser tão belos quanto nocivos, depende da disposição de nos entregarmos a cada uma delas.

Vanessa Vascouto/Arquivo pessoal

O livro abre com a figura da formação de um barco de origami e há uma cena em que uma personagem manda pipas de origami para a outra, representando o dobrar do tempo. É uma imagem muito poética. Você disse que o barco significava o navegar na história, mas eu interpretei também como uma forma de seguir em frente. Poderia comentar um pouco sobre essa simbologia do origami em relação ao tempo?
Seguir em frente é uma interpretação lindíssima também! O que eu pensei foi que Água Fria é uma história que tem lugar nesses tempos que se dobram e se desdobram e que se encontram em pontos imprevistos, mais ou menos como um origami – ou como a vida mesmo. Isso diz respeito prioritariamente à construção da narrativa, que não precisa necessariamente de uma cola entre os capítulos, sua temporalidade e os acontecimentos porque dão conta de se sustentarem sobre essa estrutura fina, delicada e, ainda assim, completamente amarrada em si – de novo, como os origamis.

Apesar da história se concentrar em Caroline e Yannis, a Mandy foi uma personagem que me chamou a atenção, inclusive senti vontade de saber mais sobre ela. Achei muito interessante a história do seu passado como refugiada. Inclusive notei que grande parte das personagens que se cruzam na França são imigrantes e até mesmo o Yannis, embora francês, é filho de um grego. Comento porque achei uma sacada muito perspicaz, em um momento em que vem aumentando a hostilidade contra imigrantes na França.
Sim, a França sempre me trouxe essa sensação: a de ser um caldeirão de gente do mundo, e eu acho isso belíssimo – de fato, o que mais me interessa no lugar. Mas, de modo geral, nessa história me interessou muito o estado do estrangeiro: voluntário, como Caroline; ou involuntário, como no caso da Mandy, que fugiu do Congo em função dos conflitos.

Também foi um desejo trabalhar com personagens que tivessem em si esse senso de deslocamento, algo que fizesse deles seres quase que flutuantes. Apesar de Yannis não ser exatamente um estrangeiro ele tem esse senso em função da trajetória particular com o próprio pai, que é imigrante, mas que impôs ao filho a criação à sombra de uma paternidade ilegítima – e esse é um fato que embasa boa parte da personalidade e das escolhas de Yannis ao longo do romance.

Para finalizar, quais são os seus projetos para o futuro? Tem algo em vista que você possa adiantar?
Tem um original infantojuvenil que, inclusive, foi finalista do Prêmio Barco a Vapor este ano e que precisa de editora. Tem a peça, A Maior Distância Entre Dois Pontos, cuja dramaturgia deve sair em livro pelo SESI ainda em 2019 e que eu espero que seja montada em breve. E tem um escrito novo, uma adaptação para a prosa da minha primeira peça Meditação sobre o tempo. Projetos, projetos, projetos. Importante é não parar de plantar.

“É um desromance, ela me avisou. Mas logo se arrependeu, pois a história de Caroline e Yannis, mostra-se a todos afinal. Desdobrando esses espaços origâmicos, recheados de um tempo que pode ser tão incômodo quanto confortável, o silêncio faz mais sentido que as palavras. O frio conserva mais memórias que o calor. E vou descobrir que partes dessa narrativa me habitam também. Planos que deram certo em meio a soluços. Caminhos de amores interrompidos, que só tem passado…  E era amor? Sempre é. O invisível que a gente sente.” – Fernanda Takai

ÁGUA FRIA E AREIA: O QUE SE PASSA NO INVISÍVEL

Vanessa Vascouto
Lamparina Luminosa
82 páginas
R$32,00

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