Eisner retorna à avenida Dropsie para contar mais histórias sobre a condição humana em tempos difíceis
Por Paulo Floro

A FORÇA DA VIDA
Will Eisner (texto e arte)
[144 págs, R$ 38, Devir]

As memórias são a matéria-prima para a obra de Will Eisner, um dos mais importantes autores de quadrinhos do mundo, morto em 2005. A Força da Vida, lançado pela Devir é mais uma narrativa onde suas lembranças nos subúrbios de Nova York servem de ambiente para falar sobre pessoas, em sua maioria imigrantes, vivendo nos difíceis anos da Grande Depressão.

Não é a primeira vez que Eisner explora esse enfoque. Outros livros como Um Contrato Com Deus, Avenida Dropsie e O Sonhador, todos publicados pela Devir, já traziam contos sobre as agruras desse período. Neste A Força da Vida, Eisner volta à Avenida Dropsie para apresentar histórias de gente sem perspectivas, cujos sonhos é manter um mínimo de força para sobreviver.

O principal deles é o marceneiro judeu Jacob, espécie de condutor da trama, que vive com sua mulher histérica. Numa sequência bem ao estilo de Eisner, ele começa a divagar com uma barata, fazendo reflexões sobre sua existência a partir do ímpeto de sobrevivência do inseto e decide que não quer passar o resto da existência como uma barata, apenas lutando por se manter vivo.

O interesse de Eisner é nas pessoas, no que sentem, o que as motiva. Esse é um claro aspecto de seu trabalho, apesar deste álbum ser o menos introspectivo de sua obra. Numa tentativa de tornar a reconstrução do período verossímel e rica em detalhes – inclusive usando interlúdios com recortes de jornais – Eisner colocou em detrimento uma construção dos personagens mais eficaz. Alguns como Frieda, a imigrante judia que foge do nazismo são apresentadas com pressa. Ela se comporta quase que como figurante até o fim do livro.

Para novos leitores, este é o mais modesto livro de Eisner, com poucas experimentações no quesito narrativo e com uma história linear, mas nem por isso pouco emocionante. Ainda assim, trata-se de uma graphic novel importante na obra do autor, por retomar vários de seus temas característicos. Não chega a ser um clássico, mas ainda continua sendo uma experiência única ler os quadrinhos do reinventor da nona arte.

NOTA: 7,0

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