Verhoeven e o blockbuster de autor
Diretor holandês utiliza em A Espiã o que de melhor aprendeu em Hollywood: prender a atenção da platéia
Por Cláudia Vital

Tendo a perseguição aos judeus como pano de fundo e baseado em fatos reais, o filme O Livro Negro, traduzido para o português como A Espiã, do cineasta holandês Paul Verhoeven, resgata uma questão praticamente esquecida pelo cinema: a trama existente entre alemães, judeus e holandeses durante a 2ª Guerra Mundial. A Holanda estava ocupada pelos alemães, o povo sofria a pobreza e judeus ricos tentavam escapar à perseguição. Depois de se esconder na casa de uma família cristã, Raquel, a protagonista da história, reencontra a sua família que, junto com outros judeus, tentam fugir para a Bélgica, mas não conseguem porque na viagem foram fuzilados pelos nazistas. Raquel pula na água, se esconde e consegue sobreviver. Ao ser encontrada, é encaminhada a um grupo de resistência holandesa, que clandestinamente age contra os alemães. A partir desse ponto a história muda de rumo.

Para esconder a origem judaica Raquel muda o nome, a cor dos cabelos e pentelhos, a maneira de vestir e se portar. Agora ela é Ellis de Vries, uma “holandesa” que ganhou a simpatia e a intimidade do capitão Muntze e conquistou um emprego entre os nazistas. Dessa forma, se infiltrou e conseguiu informações valiosas para seus colegas da resistência, mas, não demorou muito para que ela fosse descoberta. Novamente a história ganha outro rumo, agora com mais ação e reviravoltas que dão forma ao jogo da espionagem, uma espécie de filme de máfia, onde o chefão é um nazista metido a merda que logo perde o trono ao perder a guerra. Chegamos ao começo das principais descobertas.

Aqui, Verhoeven nos mostra a outra face dos holandeses, que por vezes parecem tão cruéis e imbecis quanto os nazistas. Ellis está em um campo de concentração, sofre humilhações, mas é resgatada por um colega que fez parte da resistência. A realidade vem à tona, amigos são na verdade inimigos, traições nunca imaginadas explicam o desenrolar dos fatos e colocam as coisas no devido lugar. É hora de reconhecer o valor da construção da trama roteirizada por Verhoeven e Gerard Soeteman. Ao final da história a câmera nos leva ao destino dos judeus após a 2ª Guerra: Israel, onde mora a ex espíã Ellis, que voltou a ser Raquel e novamente vive entre cercas e soldados, só que agora em outro contexto. O cenário mostra o inicio de uma guerra futura, a guerra de agora, motivada pela ocupação judaica na palestina através da construção do estado de Israel. Para o espectador é deixada a mensagem pseudo-subliminar de que a guerra não acabou, ela só mudou de nome e lugar.

Quem vê esse filme não imagina que foi construído pelo mesmo diretor de RoboCop, O Vingador do Futuro, Instinto Selvagem, Tropas Estelares e O Homem Sem Sombra. Acontece que Paul Verhoeven se cansou de ser pau-mandado de Hollywood e resolveu fazer um filme mais autoral. Não que o filme seja muito poético ou possível de ser captado somente pelas mentes mais refinadas, a história é bem assimilável e tem ritmo, ação, características encontradas no passado de Verhoeven. Herança Hollywoodiana, mas que não faz mal à A Espiã, pelo contrário, se faz necessária. Pelo menos Verhoeven levou consigo o melhor, talvez único ingrediente louvável no cinema americano massificado: a capacidade de prender o espectador.

A reveladora

Carice van Houten, atriz principal, recebeu elogios da crítica pela beleza e desempenho, apesar de terem comentado mais a parte em que pinta seus pêlos pubianos do que a atuação propriamente dita. Paul Verhoeven está sendo melhor visto depois desse filme, já que os últimos foram considerados um fiasco. Talvez Verhoeven tenha conseguido contar essa história, parcialmente ficcional, com propriedade e desenvoltura por ter presenciado a ocupação nazista na Holanda quando criança e por ter conseguido se libertar dos pré-requisitos da grande indústria. Seja como for, A Espiã não chega a ser um filme imperdível, mas com certeza está na frente de muitos por tratar de um tema relevante, conseguir remontar o clima da época sem chocar e nem se omitir e por ser, sem dúvida, uma boa distração.

A ESPIÃ
Paul Verhoeven
[Zwartboek/Black Book, Holanda/Bélgica 2006]

NOTA: 8,0

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