A inspiração da dança de Pina Bausch no trabalho do coreógrafo Ryan Heffington

A inspiração da dança de Pina Bausch no trabalho do coreógrafo Ryan Heffington

O trabalho coreográfico nos clipes recentes de Sia são um dos principais eventos na música pop hoje em dia. A gênese desse trabalho tem no DNA referências de um dos maiores nomes da música contemporânea, a bailarina alemã Pina Bausch.

Ao associarmos o nome de Pina Bausch, responsável pela criação do gênero “dança-teatro” na Alemanha e no mundo, com o trabalho do coreógrafo americano Ryan Heffington e com o gênero de dança urbana “finger tutting”, trabalhamos com a possibilidade de compará-los a uma transação residente na beleza e nos movimentos de articulações, dobras e expressões das mãos e dos dedos, ao observarmos uma linguagem para dança cheia de particularidades atraentes e de criações pouco vistas no balé ou em outras categorias da dança clássica, por exemplo.

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O trabalho de Pina apresenta inúmeras características marcantes. Evelyn Tosta, Bacharel e Licenciada em Dança
 pela Universidade Federal de Viçosa, cita alguns exemplos como “improvisação; movimentos do cotidiano; movimentos abstratos ou puros usados de forma narrativa, cômica ou abstrata; efeito de distanciamento e momentos cômicos inesperados; aproximação do real contra uma representação formal e artificial; técnicas de colagem; reflexão sobre as relações humanas; uso de elementos do teatro, como cenários, textos, construção de uma dramaturgia; grandiosidade no quadro cênico (roupas e maquiagens) que definem papéis sexuais e sociais; quebra de expectativa no público para movimentos virtuosísticos; uso do exagero e do absurdo; o corpo usado para estimular a nostalgia; utilização de movimentos repetitivos e estranhos para demonstrar que bailarinos também tem conflitos, não sendo seres “perfeitos”; constante incompletude e uma busca e transformação em um pensar, sentir, fazer, fragmentado ao invés de integrado”.

A famosa "Seasons". (Reprodução/alittlelank.blogspot.com).

A famosa “Seasons”. (Reprodução/alittlelank.blogspot.com).

Uma de suas coreografias mais importantes e famosas, a “Seasons”, em que gestos simbólicos com as mãos e com os braços mostram a passagem de cada estação do ano, conta com uma extensiva repetição estética muito bem planejada e ensaiada.

A mesma repetição de ações como um meio de criar no bailarino e no público emoções, sentidos e existências, é de uma finura coreográfica marcante na dança de Bausch. Entre as inúmeras perguntas que Pina costumava fazer aos seus bailarinos para que eles se envolvessem cada vez mais no processo de criação e de interpretação de suas peças, uma delas era: “Mova a parte favorita do seu corpo”. E talvez tenha sido sob essa perspectiva que a essência do gênero de dança “finger tutting” tenha surgido: a criar um vocabulário dançante e rico para uma única parte de nosso corpo.

A coreografia de dedos de Pnutt. (Divulgação).

A coreografia de dedos de Pnutt. (Divulgação).

Egito e hip hop

A palavra em inglês “tutting” refere-se a um tipo angular de movimento originário de hieróglifos egípcios, envolvendo movimentos simétricos e rápidos com os dedos, os braços e os ombros, similar ao “popping”, ao “turffing”, ao “flexing”, ao “locking” e ao “miming” – todos gêneros adjacentes do hip-hop e com grande influência da mímica.

A modalidade recebeu atenção especial dos jovens e da mídia graças à John Hunt, também conhecido pelo nome artístico de Pnut, que faz vídeos com bastante acesso no Youtube. Inclusive o dançarino participou do clipe de “Shake it Off” e colocou a Taylor Swfit para dançar com os dedos. (Você pode ver vídeos dessas danças aqui, aqui, aqui e aqui). No Brasil, Rafael Guarato prática elementos do “tutting” nos espetáculos nos quais faz parte.

Já no trabalho de Ryan Heffington, precisamente nas coreografias que o artista criou para a cantora australiana Sia nos videclipes “Chandelier”, “Elastic Heart” e “Big Girls Cry“, há uma presença significativa de expressões gestuais e faciais. Movimentos repetitivos, obsessivos, de autoflagelação, indecisão, medo e insegurança são trechos da personalidade da cantora passados a sua versão mini, interpretada por Maddie Ziegler, de 12 anos. Em uma dança mimética, explicitamente bem gesticulada e explicada, todos os sentimentos da coreografia e da atriz-dançarina vem à tona.

A assinatura visual da jovem bailarina é definida por seu figurino, constituído por um body bege e uma peruca loira, vestuário que a cantora Sia adotou em seu trabalho artístico autoral recentemente. Há então uma marca de identidade visual precisa, vista também nos trabalhos de Pina, como seria o caso dos vestidos longos, leves, soltos e coloridos das bailarinas da coreógrafa.

Ryan conta em entrevista ao site Berlin Art Link que a escolha do ambiente, do cenário e de escalas arquitetônicas interferem em suas coreografias. Espaços abertos podem inspirar sentimentos de solidão e de liberdade, de acordo com o artista. Ele afirma que no vídeo de “Chandelier” esperava-se que Maddie interagisse de maneira emocional com objetos inanimados. “Se ela estivesse debaixo de uma mesa, a indicação é de que ela poderia estar se sentido segura ou com medo. Se estivesse em pé ou na borda de algum móvel, ela teria super poderes ou estaria em estado de depressão”. Já em entrevista ao site SSENSE, Ryan explica que muitas de suas peças são sobre o amor e a necessidade de ser amado. Ele descreve algumas de suas obras como “um mash-up psico-sexual entre Vaudeville, Gallagher, Lucille Ball, Wendy O. Williams, Bob Fosse, Pina Bausch e PJ Harvey”.

Pina Bausch. (Divulgação).

Pina: movimentos repetitivos e estranhos para demonstrar conflitos. (Divulgação).

Tal abordagem para as performances explora a presença física e o impacto de gestos e movimentos singulares, assim como o trabalho de Pina e as danças de jovens com os dedos. “Gosto de embelezar projetos com um nível de humanidade: a criação de narrativas de profundidade emocional, mesmo que de maneira breve”, comenta Ryan.
Todos os gêneros citados ajudam a potencializar a coordenação, a agilidade e a leveza dos músculos e dos movimentos estrategicamente pensados pelos bailarinos e por seus coreógrafos. Neles, o rosto, as mãos, os dedos e a parte superior do corpo são as personagens principais e, por essa razão, necessitam ser delicadamente estudadas e cuidadosamente ressaltadas em suas apresentações.

Em um palco, espetáculo, na rua, em um quarto ou por um vídeo, o admirável é que a criação de novas opções e visões coreográficas com influências ou não de ícones da dança possam ser obras extremamente teatrais e cobertas de significados, que exploram incomuns possibilidades estéticas sociais, políticas e culturais em coreografia, vídeo, música e moda.

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