AS FERIDAS DE UMA ANTIGA CRISE
Em A Dama da Água tudo é gancho para apresentar ao público a forma como a narrativa está em xeque
por Fernando de Albuquerque

Os filmes do indiano Shymalan sempre precisam de um certo tempo para serem deglutidos. E isso fica mais notório em sua nova produção A Dama na Água, que teve rápida passagem pelo Recife nas sessões ditas de arte do Shopping Boa Vista. E que agora só resta esperar a tardia chegada em DVD.

Dois motivos básicos podem ser elencados para essa necessidade de tempo. Primeiro porque o cineasta rejeita qualquer tipo de interpretação mais cult de suas produções. E isso ele deixou bem claro depois da exibição de A Vila, quando uma penca de leigos viram no filme certa “alegoria social e política que desmonta o aparelho conceitual da sociedade”, vide as palavras de um crítico brasileiro muito pouco abnegado. Ledo Engano da crítica especializada.

Em segundo lugar porque o filme põe em crise algo que está cada vez mais difícil de esconder: a crise de ficção, a crise da magia contida na grande narrativa. E talvez disso advenha certa antipatia do público. Afinal criticas sociais bem baratas (do tipo de “Crash”, “Tiros em Columbine” e do antigo “Cidade de Deus”) costumam agradar mais que discurso sobre a linguagem.

Logo de cara mais uma dica: quem não assistiu A Vila desista de ver A Dama na Água. O segundo começa quando aquele termina, no exato momento em Ivy encontra com a guarda florestal e paira no ar uma surpresa recheada de “já não há como remediar”. O filme começa com esse pensamento nas primeiras imagens.

Partindo para o enredo: a história é bem no estilinho fairy-tale. Cleveland é um porteiro comum de um condomínio com vários moradores. Todos muito excêntricos (claro!) e que possuem características bem definidas: há o viciado em palavras cruzadas, o grupinho que se junta para “puxar” um, o homem que malha apenas um lado do corpo, etc. Mas tudo muda quando Story (e fica bem explícito a crítica ao enredo) chega pela piscina do condomínio que recebe o nome de “The Cove”.

Ela é uma narf que, assim como a introdução em animação do filme explica, é um ser das águas responsável por tentar ajudar o homem a seguir o caminho correto para a humanidade. Só que, nessa visita ao nosso mundo, alguma coisa dá errada e Story passa a ser perseguida pelos terríveis scrunts, lobos com poderosa camuflagem que tentam a todo custo comer narfs. Cabe ao nosso querido Cleveland ajudar a moça a voltar para sua terra natal. E nisso fica impossível fugir ao clichê de personagens de histórias de ninar que ganham uma roupagem bem pós-moderna. Afinal, nem tudo é ineditismo.

A Dama na Água, então, faz um retorno à raiz. Ou melhor, dois retornos: à utopia, que é combustível de toda fábula, e à oralidade, não só o primeiro modo empregado na transmissão das fábulas e dos mitos, como também a primeira etapa da vida a “fase oral”. Que remete à nossa participação inaugural no mundo. O cineasta afirma o poder de eternidade das ficções ancestrais, mas não deixa um só minuto de colocar a questão do “porquê” elas não funcionam mais da mesma forma”.

As pessoas “não ouvem mais”, diz o narrador da estória sobre o Mundo Azul contada no início do filme. Ela é ilustrada por desenhos feitos num estilo naïf que já dá a entender algumas das intenções do diretor. Essa forma primitiva de narração contida na fábula do Mundo Azul se opõe à deflação narrativa do filme em si e com isso Shyamalan atinge o ponto nevrálgico da dificuldade de ficção que se abate sobre o cinema. Pois se há hoje o retorno fácil ao épico ou ao fantasioso propiciado pela renovação tecnológica, há também a tendência, igualmente forte, a investir nas superfícies e fazer a narrativa se perder nas curvas de uma infinita espiral do tempo. Ou mesmo ter na trama um pretexto para a exploração de certo efeito-cinema (seja na vertigem do puro movimento ou na embriaguez do livre escoamento de imagens).

A Dama da água acaba sendo um filme chato, que não agrada uma platéia fixada na história e entretida em surpresas dentro da história. O público quer susto, emoção e choro descondensado. Shymalan traz reflexões que não tem uma função social reconhecida. A revolução dele é através da estética. A do público deságua nas armas.

A DAMA DA ÁGUA
de M. Night Shyamalan
[EUA, 2006]

NOTA: 7,0

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