BOAS NOVAS NA LITERATURA BRASILEIRA
Fruto de convivência acadêmica, durante doutoramento na Puc do Rio, “A Chave de Casa” apresenta as veias abertas de uma das mais jovens escritoras da terrinha
Por Fernando de Albuquerque

Títulos novíssimos e primeiro romances geralmente tem tudo para naufragar na obviedade do que seriam os cânones da narratividade contemporânea. Principalmente se eles são fruto do encastelamento acadêmico como é o caso de A Chave de Casa, de Tatiana Salém Levy. Como temas centrais ela enlaça a busca da identidade (tudo revelado em volteios de memória), questão das migrações, uma densa pitada política, o feminino em constante conflito amoroso e discurso fragmentado. Seu livro tem tudo isso e consegue sobreviver. O porquê desse não-naufrágio está na percepção de que a cada página o leitor se surpreende com certa volupia da escrita, com uma dor um tanto reclusa e agora desaguada pela própria autora.

Nascida em 1979, Tatiana se apresenta com uma estréia a ser saudada pela segurança. Isso a despeito de uma armação que poderia ser totalmente artificial já que o livro não se abre em excessos. O leitor encontra um texto estranhamente familiar no que diz respeito a necessidade de arrebatamento e contenção. As camadas de memória (a cada capítulo um tempo e um espaço distintos do outro) vão montando um quebra-cabeça de quantas peças a leitura ativar: amor, viagens, morte, tradição.

Um corpo que percorre a Turquia na esperança de encontrar uma casa de família e um corpo que jaz e sofre numa cama. Um paralelo tão contraditório como as confissões que lemos; confissões sobre um amor que vai sobrevivendo graças a instantes de delírio sexual, em que tudo é permitido, aliados a momentos de medo. E, ao mesmo tempo, por entre narrativas ficcionais e memorialísticas, a figura maternal, a mãe que se ama, a mãe que já morreu mas que se quer ressuscitar, a mãe de que se precisa.

E nessa torrente a personagem dá partida a busca de um sentido para seu corpo paralisado. Ela faz uma viagem de retorno às origens, tentando encontrar a casa onde o avô morava na Turquia. Paralelamente a essa história, outras duas narrativas desenham diferentes possibilidades de resposta à sua paralisia: a morte da mãe e uma história de amor violenta. Há ainda uma quarta narrativa que conta o passado do seu avô, que veio para o Brasil aos vinte anos, e da sua mãe, que foi torturada e exilada durante a ditadura.

Neta de judeus turcos, Tatiana nasceu em Lisboa, mas veio para o Brasil antes de ter completado um ano de idade. Os pais estavam exilados por conta da ditatura militar. Os dados biográficos se confundem com os da narradora. Importa pouco frente à literatura de personagens tão inventados quanto a memória que os representa e cujo caráter ficcional a própria narrativa entrevê. A mãe com quem a narradora dialoga na página, os amantes (entre a violência e a doçura) e o avô que a impulsiona em direção ao passado – dando-lhe a chave da casa real e metafórica para que ela caminhe com as próprias pernas –, tudo isso compõe a verdade desta agridoce ficção de passagem.

Doutora em Estudos de Literatura, Tatiana vive no Rio e já participou das antologias de contos 25 Mulheres Que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira (Record) e Paralelos (7Letras). A Chave de Casa saiu antes em Portugal, pela editora Cotovia. Aqui, a Record lhe deu tratamento luxuoso. E vale muito a aposta. O livro tem méritos e tanto.

A CHAVE DE CASA
Tatiana Salém Levy
[Record, 208 págs, R$ 32]

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