FAMILIARIDADE NA PELÍCULA
Hiper-realismo história de A Casa de Alice
Por Raphaella Spencer

A novíssima safra do cinema brasileiro que inclui além da A Casa de Alice, filmes como Cão sem Dono (Beto Brant e Renato Ciasca) e Céu de Suely (Karim Ainouz) acenam para um hiper-realismo, principal álibi de todos os enredos citados acima. São filmes que tem em comum uma preparação de elenco que acaba levando os atores a internalizar seus personagens, tornando difícil distanciar os atores de suas interpretações.

A Casa de Alice é a primeira ficção de Chico Texeira, cineasta com uma carreira consagrada como documentarista. A fotografia de Mauro Pinheiro Jr, mesmo de Cinema Aspirinas e Urubus, que opta por uma luz naturalista e por enquadramentos simples, contemplativos e que chegam bem perto da ação, nos levando pro meio das situações. A fidelidade da direção de arte também nos aproxima do filme, em cada detalhe, nas coisas que decoram a casa, na fachada do bar, na penteadeira do salão, tudo passa uma certa familiaridade. E talvez seja essa sensação de conhecer aqueles lugares o que causa maior pertubação, um realismo cru, com um som que nos insere na história, sem trilhas compostas, sem firulas que possam lhe lembrar as vezes de estar assistindo a um filme.

Aqui, o ambiente do qual estamos falando é o de um apartamento de classe média baixa num subúrbio paulista, onde a manicure Alice (Carla Ribas) vive com seu marido, seus três filhos e sua mãe, Dona Jacira (Berta Zemel). É ela quem observa atenta o dia a dia dessa família. A cena inicial do filme já dá uma pista sobre o papel dela dentro dessa casa. Um rato entra embaixo da máquina de lavar na área de serviço. Sem se alterar, ela busca um pedaço de pão no qual polvilha raticída e coloca-o debaixo da máquina. Com a mesma frieza com a qual resolveu o episódio com o rato, ela vai observando e mascarando as realidades escusas de cada um dos indivíduos que dividem aquele apartamento.


Alice (Carla Ribas) e sua mãe Jacira (Berta Zemel)

Talvez por ser no todo extremamente convincente, a complexidade da trama e as tantas histórias de lado negro de cada personagem, acabam sendo demais para um filme só. Se o filme tenta nos inserir na realidade de seus personagens, e quase consegue, o que fica a desejar é a quantidade de temas trazidos a tona. Num mesmo apartamento temos solidão, traição, incesto, prostituição, roubo, velhice. Todos esses assuntos são introduzidos até certo ponto e postos sobre seus personagens, mas não como conseqüência de quem eles são, e por isso fica difícil se envolver com tantas nuances da mesma história, o que acaba enfraquecendo alguns personagens, quase sem justificativa. Mas se concentrarmos nosso olhar para as mulheres representadas em Alice e em Dona Jacira, o filme ganha uma força incrível. Quem elas são, por que agem como agem, tudo faz muito sentido dentro da realidade na qual estão inseridas.

Em A Casa de Alice somos cúmplices de duas histórias de vida, como espectadores ganhamos ares de vouyer. No cinema observamos quietos as realidades de mãe e filha vemos como cada fato leva a uma conseqüência, julgamos as decisões das personagens, sem o menor distanciamento, exceto, por que uma hora o filme acaba, voltamos à nossa realidade, certos de que conhecemos aquelas pessoas de algum lugar.

A CASA DE ALICE
Chico Texeira
[A Casa de Alice, Brasil, 2007]

NOTA: 8,5

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