OUSADIAS DE MACHADO
Pautado pelo centenário de morte do escritor, editora carioca lança adaptação de A Cartomante unindo fotografia e quadrinhos
Por Paulo Floro

A CARTOMANTE
Flávio Pessoa e Maurício O. Dias (texto e arte sobre texto original de Machado de Assis)
[Jorge Zahar, 33 págs, R$ 39]

A idéia mais errônea que pode existir por trás de uma adaptação literária para os quadrinhos é que uma HQ precisa ser um livro ilustrado. Quando Flávio Pessoa, ilustrador e designer gráfico se jogou na aventura de adaptar A Cartomante de Machado de Assis, tinha em mente que precisava, antes de tudo inovar na linguagem. E o intuito foi alcançado com sucesso, resta saber até onde funcionou.

Para os padrões da produção quadrinhística nacional, o álbum, lançado pela Jorge Zahar traz técnicas inovadoras, apostando no uso de fotografias da época – de Marc Ferrez e Augusto Malta, entre outros – para situar e contextualizar o leitor. No entanto, mais do que representar uma interessante experiência estética, a idéia leva o leitor à uma literalidade e obviedade que prejudica o resultado final. A sensação é de uma colagem um tanto caótica, distante do bem-sucedido O Fotógrafo, que usa técnica parecida.

O roteiro é melhor construído. Sabendo que levar ao pé da letra a fidelidade ao texto original resultaria em redundância, o texto é solto, proporcionando leitura agradável. Um dos responsáveis é Maurício O. Dias, formado em cinema e roteirista de TV e cinema, que co-assina a adaptação. A Cartomante é a obra de Machado que melhor se encaixa em outras mídias. Mas não por ser fácil, e sim por trazer a síntese de toda a obra do escritor: pessimista, irônico e por que não, maldoso. A história é velha conhecida: Vilela ama Rita, que ama Camilo, seu melhor amigo, que chegou de viagem. Segue-se um enredo de adultério e dissimulações e, no meio de tudo, uma cartomante, que irá guiar os personagens para um destino trágico, mas inevitável.

Este álbum ainda conseguiu transpor o clima de thriller para os momentos finais, quando Camilo, o amigo traidor vivencia os últimos momentos antes do encontro com o marido traído, Vilela. Os desenhos em aquarela colaboram para transpor o clima do Rio de Janeiro daqueles tempos. O conto, publicado em 1884 traz o duro olhar de Machado sobre a sociedade burguesa da época. Hoje, perdura sobre um estudo das relações humanas, além de figurar como uma das obras primas da literatura nacional.

A edição da Jorge Zahar, pautada pela comemoração do centenário de morte de Machado de Assis podia ter um preço menor. São apenas 33 páginas por R$ 39 reais. Nada demais o livro ser fininho, mas o preço não precisava ser tão alto.

NOTA: 6,5

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