A Alma Imoral (Foto: Dalton Valério/ Divulgação)

Uma entrega de corpo e alma
Por Fernando de Albuquerque

São 50 minutos que podem ser o soco no estomago dos mais ortodoxos, o alívio dos céticos e libertários, o reconforto das mentes mais inseguras. Nesse monólogo, Clarice Niskier faz o papel de si mesma enquanto conversa com o público sobre traição e tradição.

Desafiando a cristalização axiomática das parábolas judaicas ela justifica, por mais paradoxal que possa parecer, uma união intrínseca entre os impulsos de perpetuar e romper. Defendendo a todo instante a necessidade transgredir para progredir, caminho sugerido pelo rabino Nilton Bonder, em livro homônimo. O espetáculo tem supervisão de Amir Haddad.

Em quase toda apresentação Clarice fica nua e lança mão de um enorme véu negro para construir um figurino completamente renovado a cada narrativa deferida. Em cena, ela conta a história de Abraão, rabinos e outros patriarcas. Fala de como as águas do mar vermelho deram passagem o povo de Israel e conta histórias de sua vida pessoal como quando apresentou o espetáculo a um grupo de empresários paulistas, em jantar na casa de uma amiga.

O humor irrompe aqui e acolá, ao mesmo tempo em que a atriz apresenta o lado mais subversivo e natural da alma: empurrar o corpo inerte rumo à evolução. Nesses meandros ela ri de si mesma e ri junto com a platéia, com pitadas de sagacidade, e porque não, de humor negro. O texto, em alguns momentos soa como conselhos de casal, ou mesmo “Momentos de Sabedoria”, mas é sua consistência tanto cênica (já que a peça não possui ação dramática – alertada pela própria atriz) quanto narrativa, que a afasta de lugares-comuns.

A Alma Imoral toca a platéia porque é feita com imensa entrega. Clarice olha nos olhos de seu público com um sorriso suavemente triste e devolve o desafio da desconstrução quando propõe ao público que diga, em voz alta, uma palavra qualquer, dentro daquilo que já foi dito e que tenha gerado algum tipo de dúvida. Ela repete o trecho solicitado e nesse momento o teatro se converte num imenso hiperlink, onde o público controla o modus operandi do espetáculo. Criando um novo texto a cada apresentação, um roteiro diverso à cada dia.

A fórmula é simples: um pano preto, um público abalado pela cultura fast food e ávido por discussões. Ainda bem que Clarice trancou, para sempre, o curso de comunicação social na Puc e mandou às cucuias o emprego repórter-fotográfica no Jornal do Brasil.

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