Crises, crises e mais crises: a esperança de consertar tudo foi uma ilusão

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CRISES NO CASAMENTO
O amor do fã brasileiro da DC sobreviveu a troca de editoras, sagas intermináveis, falhas de continuidade e muitas reviravoltas
Por Talles Colatino

Como vivemos o tempo como quem vence guerras, não é de se estranhar que o casamento, nos dias atuais, é instituição falida. Falida porque é, quase sempre, uma decisão precipitada e pouco fundamentada. As pessoas costumam se basear em quase nada para dividir uma vida. O resultado? Bem, quando não se quer, decidir largar é fácil. Esquecer nem sempre, mas recaídas são sempre aceitáveis. Soa estranho, porém mais real impossível: em casamentos, só amor não basta. O amor, por si, não conforta em horas de desespero, por exemplo. Ou você traduz esse sentimento em gestos (corretos) ou agüente as conseqüências.

Nada fácil. Tão difícil que é de se considerar heróis modernos os que conseguem contar 20 anos de convivência amigável. Tentar imaginar 70 anos de casamento completo e satisfeito parece algo improvável. Mas existe. Tanto existe que a comemoração tem até nome: bodas de vinho. E é ela que a editora DC Comics celebra, este ano, com seus milhares de maridos (e esposas) brasileiros. Não tinha como não ser um casamento super-heróico.

Era dezembro de 1938 quando o Superman pousou por aqui, no extinto suplemento cultural A Gazetinha. A partir daí, uma verdadeira indústria abriu suas portas para receber e tentar entender o que fascinava tanto os americanos em relação a meta-humanos dotados de poderes extraordinários com vocação para salvar o mundo. Já era o noivado. Batman foi o segundo a aparecer, em 1940, impulsionando a produção de quadrinhos da Editora Brasil-América. O união durou difíceis 42 anos. Ciente do bom comércio que era vender quadrinhos a um público que já era firmado como consumidor lucrativo – o jovem – a Abril comprou a causa (e todo o resto) logo em seguida, e fez a alegria dos fãs até 2002. Atualmente, em sua melhor performance gráfica, os títulos da DC saem pela Panini Comics.

A trajetória editorial da DC no Brasil pode até ser considerada como regular, visto que todas as editoras sabiam que tinham não mãos um dos mais rentáveis produtos que já passaram por aqui. O problema, não só brasileiro, mas mundial, sempre foi a irregularidade dos enredos. Somente quatro anos depois da sua estréia nos Estados Unidos (em 1934), a DC já vivia a sua era de ouro. Batman, Mulher-Maravilha, a Sociedade da Justiça da América e, principalmente, Superman. Os desdobramentos desses personagens perante a intensa produção de sagas colocou a editora numa encruzilhada: anos depois, como tornar regular a história – para não dizer biografia – de cada personagem? Era um exigência do público que deixava de ver aquele material como um mero entretenimento gráfico. Eles queriam uma continuidade clara e correta acerca dos seus heróis. Necessidades de apaixonados.


52: Fase esquizofrênica da DC ao menos tem bons roteiristas

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Para a DC Comics não restou alternativa. E zilhões de realidades paralelas foram inventadas para justificar muitos dos deslizes cometidos pela continuidade do roteiro. Resultado: como dar conta de um multiverso, com tantos mundos independentes porém correlatos? Os leitores estavam cada vez mais perdidos em sagas intermináveis em terras diferentes. Como foi dito acima, num casamento, só amor não basta. Tem que ter paciência. No caso dessa mais que nunca esquizofrênica fase da DC, muita paciência.

Universo em crise, relação em crise. Disso, surge talvez até hoje o maior e melhor épico da editora: a Crise das Infinitas Terras (lançada em 1985 lá fora, e em 1996 aqui), que surge com um objetivo estrutural claro, que era dar fim ao multiverso, para o alívio do público. Mas a saga foi além. Com o roteiro primoroso de Marv Wolfman e arte de George Perez, Crise das Infinitas Terras serviu como um novo fôlego à vida dos heróis da DC e ao casamento da editora com seus fãs. O impacto foi tamanho que desdobramentos (às vezes bem forçados) não faltaram para tantas odisséias que a Liga da Justiça e seus colegas enfrentaram. Até as mais recentes Crise de Identidade e Crise Infinita, bons trabalhos como DC 1 Milhão, de Grant Morrison e O Reino do Amanhã, de Mark Waid viriam para ajudar a dar continuidade ao que Crise das Infinitas Terras se propôs a fazer em relação à “estabilidade roteirística” da editora. Tudo para o bem da relação, que de tanto durar, já aprendeu a desculpar falhas.

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