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Como Conversar com Um Fascista, de Márcia Tiburi (Record, 2015, 196 págs, R$ 42) é título, no mínimo, desconcertante. A filófosa, dona de uma míriade de livros ovacionados pela crítica e cujo nome tem grande difusão entre os brasileiros, reflete de forma profunda e inquietante sobre um mal que nós acomete nesses tempos de crise política: viver entre os extremos da esquerda e da direita. Para além do maniqueísmo reinante, ela reúne 67 textos em que examina a cultura política sobre cotidiano autoritário do nosso País.

Com rigor de pesquisador, mas se afastando dos maneirismos e do protocolo acadêmico, ela fala sobre temas difíceis como genocídio indígena, racismo e classismo, homofobia, feminicídio, manipulação de crianças. O “ódio ao outro” e o “ódio do outro” é o eixo central escolhido por ela. Essencial por ser um antídoto contra tuda a veleidade que está posta nas mesas de bares, nas redes sociais e nos encontros furtivos, Tiburi bebe fundo na Escola Crítica, em especial em Adorno para tecer sua narrativa que, suave, abre caminho para a compreensão de que o cidadão de direita acredita na desigualdade entre as pessoas, mas que o facista quer fazer o diferente silenciar. Extipar a voz do “desigual”, negando-lhe o convívio.

Para Tiburi a violência nasce, ainda, na mídia de massa, na experiência intelectual e de conhecimento que temos em frente à TV e aos veículos que reproduzem tudo que somos e o que não deveríamos ser. Nesse entremeio de disseminação da violência simbólica nega-se as diferenças, qualidades dos opositores, mata-se a possibilidade de enriquecimento pelo debate, não há mais conquistas históricas e a luta de classes é negada quando se prevalence a vontade de um único grupo.

Essas reflexões são essenciais em um período em que a direita, históricamente símbolo de opressão, agora, empunha as bandeiras dos movimentos sociais, das lutas e conquistas de classe. Carregando o bastião de uma democracia que, processada e identificada pela extrema direita, não é mais suportada. A democracia, então, passa a ser símbolo de uma liberdade que deve ser evitada em nome de uma ética – antigamente chamada de moral.

O clamor pela ditadura e pela formação de uma junta militar no governo são fruto da própria desconfiança do ideário facista que demonstra ódio do conhecimento, afrontando qualquer um que venha abalar suas crenças, a confusão entre acusação e julgamento. Uma espécie de inquisição pós-moderna que tem suas raízes bem fundadas nos principais sintagmas daquilo que o facista considera desonroso ou ignóbil.

O antídoto para o facista é o diálogo. Insistir na pluridade. No poder formador e intelectual do diálogo e da conversa. Uma ação que nega a violência e presa pela bilateralidade. Evocando, no diálogo, a razão iluminista, a honestidade intelectual o reconhecimento do outro enquanto fonte de saber.

Todo o livro de Tiburi, do prefácio assinado por Jean Willys, aos artigos e textos, tem esse tom de bate-papo. Um bate-papo que não se esquece da principal razão de ser da filosofia que prioriza as questões políticas.

COMO CONVERSAR COM UM FACISTA - Reflexões sobre o cotidiano brasileiro Márcia Tiburi Editora Record 196 páginas - R$ 42,00

COMO CONVERSAR COM UM FACISTAReflexões sobre o cotidiano brasileiro
Márcia Tiburi
Editora Record
196 páginas – R$ 42,00

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