Barbie (Foto: Divulgação)

BARBIE GIRL
Para lá de balzaquiana, barbie se mantém no topo do sucesso se reiventando a cada estação

Por Talles Collatino

Não é novidades que a história das sociedades é construída em cima de personas e fatos que se encarregam – muitas vezes mesmo sem querer – da missão de conduzir as massas para um fim comum. Um fim pautado num princípio e num corpo de ações. Foi assim com as inúmeras revoluções que a historiografia dá conta, inclusive emancipação feminina. Inúmeras intelectuais propuseram discursos à favor da igualdade de gênero e inúmeros atos em favor do movimento feminista desenharam um panorama que se desenrola até hoje da presença das mulheres nos vários segmentos sociais.

O problema é que trabalhar o consciente coletivo de mulheres que nasceram e se criaram num berço machista por opção e razão não é fácil. O trabalho de muitas teóricas feministas, que deveriam atingir às suas maiores interessadas, as mulheres “normais, ficou preso na academia. Mas há 50 anos, nascia uma mulher que se tornou um modelo perante tantas outras sem precisar proferir uma única palavra, pelo menos com a própria boca. A chave-mestra dos sonhos financeiros da empresa americana Mattel, a Barbie nunca precisou pegar gritar uma palavra de ordem para iniciar uma das maiores revoluções femininas dentro da cultura pop. Revolução regada a consumo, moda e frescuras sob o famoso lema “Barbie, tudo o que você quer ser”.

Mas, a lógica dessa guerrilha de salto alto e vestido longo não parte do nada. Isso porque, desde o início, a Barbie nunca foi vendida sozinha. A boneca sempre vendeu consigo mais que um estilo de vida fantasioso, uma verdadeira narrativa de como a “mulher moderna” deveria se comportar e pensar seu mundo. Isso não só mexia com o imaginário infantil, mas também com os anseios adultos, ainda mais se pensarmos que a Barbie surge no período pós-guerra, em 1959, no qual todos sonhavam com um mundo de atmosfera mais leve e tempos de paz. A boneca, elegantemente vestida e com traços finos e corpo invejável era o reflexo simulado dos desejos femininos do final da década 50.

Para entender sua recepção perante o público é preciso entender primeiro o mundo da Barbie. Ela é loira, magra, alta, seios fartos e tem uma relação estável com um namorado igualmente perfeito. Veste-se bem e, quando não está na mansão dos sonhos, está no seu castelo encantado, no seu conversível rosa ou na sua casa de verão. Não tem rugas, olheiras ou celulite. Nunca ficou doente, perdeu um filho ou foi abandonada por alguém. Somando tudo isso o que sobra é uma complexa ideologia tão lucrativa quanto rentável no mercado dos sentimentos humanos. Uma boneca que nem a boca articula diz que um mundo tão perfeito e impecável está logo ali e, para chegar nele, basta (?) ser igual a ela: linda e bem resolvida.

A primeira Barbie usava um maiô listrado, de cortes ousados. E essa peça dentro de um corpo adulto muito bem definido, faz a boneca comprar uma briga ferrenha contra a mães americanas, defensoras dos bons costumes. No meio desse fogo cruzado, coube à Mattel encontrar a saída para amenizar esse impacto numa publicidade extremamente incisiva. Dentre os pequenos absurdos, o mais extremo talvez esteja na defesa de que Barbie, como sua elegância e glamour, contribuía para que as garotas mais levadas aprendessem a se comportar como verdadeiras damas. Por mais ignorante que isso possa parecer, foi esse o argumento mais aceito pelas mães da época, que também se tornaram, a partir daí, consumidoras em potencial daquilo que cada vez menos lembrava uma boneca, e sim modelo de perfeição utópica.

O que muitas consumidoras de Barbie não raciocinam é que ela já nasceu perfeita. Barbie já nasceu a melhor de todas as mulheres. Pensando assim, Barbie nada mais é que a perfeição sobre a perfeição. Ela troca com o seu público o melhor pelo melhor, o belo pelo belo. O que as fãs da boneca tentam fazer é justamente transpor essa perfeição para seu mundo e alcançar a frustração de não ser tão perfeita dentro do nosso mundo tão imperfeito. O que resta é viver a vida intocável de Barbie nela mesma. Como diz duvidoso hit “Barbie Girl” da banda dinamarquesa Aqua, uma “garota Barbie” é aquela que acha fantástico o mundo de plástico, onde tudo é rosa choque e beleza e glamour é fundamental. “Você pode pentear meus cabelos, me despir em qualquer lugar. Imaginação, a vida é sua criação”, lembra a música, sintetizando em três frases o que a Barbie pode fazer por você.

A Mattel diz que, hoje, a cada dois segundo, uma Barbie é comprada no mundo. E isso só pode ser justificado pela diversidade de identidades que os donos da boneca a permitiram construir ao longo desses 50 anos. Barbie se moldou às transformações culturais e certos tipos de exigências sócio-políticas que essas mudanças acarretaram, a exemplo da primeira Barbie negra que só chegou ao mercado em 1980, motivada por emergências dentro de um falso processo de respeito à individualidade de cada povo. Essa visão unilateral deu ao mundo todos os tipos da boneca, da branca à negra, da americana à oriental, da princesa à rock star. Sendo produto de uma indústria que visa apenas a barganha de sentimentos por lucro, Barbie, ideologicamente, acabou deturpando o próprio slogan “tudo o que você quer ser” para “tudo que você é”.

Mas, por mais plastificado que seja seu corpo, Barbie nunca pode ser considerada uma personas passiva na ordem cultural. Ela contribuiu como modelo para que milhões de mulheres moldassem seu corpo, mente e história, numa tentativa de tentar viver a perfeição da vida desse brinquedo dentro da sua realidade imperfeita. Uma definição para esse tipo de atuação quem dá é o sociólogo britânico Chris Rojek, que enquadra a Barbie dentro de um conceito denominado de “celeator”. O “celeator” são celebridades ficcionais que se tornam, mesmo sem existir realmente, responsáveis por dominar um espaço para si na mente das pessoas, construindo uma história tão verdadeira quanto sua não-existência. E como uma celebridade desse porte, Barbie chega aos 50 anos com seu eterno corpinho de 20, segurado pelo plástico. Como milhares das suas fãs.

Galeria

Fazendo jus a sua plastificação, Barbie passou por transformações estéticas profundas ao longos dos seus 50 anos. Suas roupas, cabelos e principalmente expressões faciais tentaram acompanhar a moda e as referências da beleza exponencial. Acompanhe na galeria exemplares décadas a décadas e observe o quanto o lema “tudo que você quer ser” faz sentido na história do design da Barbie. Do primeiro modelo, passando pela primeira boneca negra até a edição comemorativa do aniversário de cinco décadas, a única coisa que ficou intocada, além da sua invejada megraza, sou o glamour de uma celebridade que o público quem construiu.

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