O TUBO OPRESSOR
Fetichast, novo livro de J. Márcio Nicolosi denuncia a face cruel da televisão
Por Paulo Floro

São 16 anos de vácuo após lançar Fetichast – Províncias do Desejo, onde os leitores foram apresentados à nação conhecida como Fetichast, J. Mario Nicolosi traz o novo Fetichast – Províncias dos Cruzados. O primeiro volume, lançado pela Nova Sampa, venceu o Troféu HQ Mix de Melhor álbum erótico.

A história do álbum é uma fábula moderna sobre Fetichast, a ilha em forma de mulher, onde o Imperador Desejo usa a TV para manter a população sob domínio. Entre outros programas, Desejo utiliza sexy apresentadoras de TV (como Puxa-Puchá) e reality shows para manter as pessoas confinadas à telinha. Algumas crianças, entretanto, escapam da hipnose assistindo a fitas de vídeos de velhos filmes, proibidas pelo Imperador e obtidas no mercado negro.

Os rebeldes liderados por Deleit, o músico Flerte e o cineasta português Sentiddo organizam a resistência, dando ao livro um leve aspecto de ficção-científica futurista. Fetichast, na verdade é uma viagem retrô, com cavalos no lugar de carros, imperadores, corte. Mas há vários links com a realidade atual, como favelas, pobreza e uma TV onipotente.

Fetichast é uma aberta crítica à televisão atual e como a sociedade responde a isso. Este segundo volume não poderia ser mais atual. As apresentadoras sexys e distantes do público, os reality shows vazios, a violência simbólica, está tudo no livro. O cuidado estético é impressionante. Essa preocupação é o grande trunfo de Fetichast. E não apenas os desenhos, lindamente ilustrados a lápis, mas sim, os interlúdios mostrando uma monstruosa televisão perseguindo duas crianças, o cuidado com os balões, e outros detalhes.

A fala dos personagens também merece destaque. Nicolosi realmente fez uma excelente pesquisa linguística, ao registrar as falas da maioria dos personagens como eles falam na vida real. Isto pode passar despercebido, mas é um dos grandes trunfos do livro e merece reconhecimento.

História – J. Márcio Nicolosi tem uma estrada longa na produção de quadrinhos no Brasil. Trabalhou durante muito tempo com a Maurício de Souza Produções. Nos anos 1980 iniciou uma carreira independente como animador publicitário. Atualmente, novamente com a Maurício de Souza desenvolve a animação do dinossauro Horácio.

Fetichast é um retrato apavorante da geração que cresceu assistindo Xuxa, num perdido (e hoje decadente) conto de fadas. A crítica à televisão feita no Brasil, nos questiona se já não vivemos num Estado totalitário, num gigantesco monopólio de idéias e cultura. Curiosa e engraçada a cena em que Puxa-Puchá, em seu programa infantil, enquanto mostra uma mesa farta com comida, diz para todas as crianças comerem direito. Uma grande falta de empatia com os milhares de crianças pobres no país – e neste caso, no Império – todo.

Se os quadrinhos no Brasil tivessem uma expressiva força na mídia, como tem nos Estados Unidos, Fetichast, definitivamente incomodaria um bocado. Da edição da Devir, com ótimo papel e impressão, faltou mesmo uma apresentação merecida para Nicolosi.

FETICHAST – PROVÍNCIAS DOS CRUZADOS
J. Márcio Nicolosi (texto e arte)
[Devir, 112 págs, R$ 30,00]

NOTA: 9,0

Sem mais artigos