A NARRATIVA DE UM BÍCEPS
Mantendo o estilo Graphic Novel, “300” não empolga e enche de angústia o espectador
por Fernando de Albuquerqe

Muitas cabeças rolam em 300, filme de Zack Snyder que chegou no último mês ao Brasil. Há sangue e flechas para todo lado, muita guerra e um rei completamente afeminado e místico. A transposição do quadrinho do festejado Frank Miller para o cinema, e que tem o brasileiríssimo Rodrigo Santoro no papel do vilão, o rei-deus Xerxes, estreou depois de ter atingido o topo da bilheteria americana. As filmagens foram realizadas em estúdio, em fundo azul, sobre o qual foram posteriormente colocados os cenários.

300, lançado em mais de 550 salas, em 160 cidades, nos conta a batalha de Termópilas, em que 300 soldados da elite de Esparta enfrentam o exército persa, muito mais numeroso. Reproduzindo truques de Gladiador, com direito a música melosa e triunfante, as duas horas de projeção não satisfaz o desejo do espectador que tem um discurso mais elaborado. Só o leigo pode sentir-se um pouco mais “informado” quando sai da sessão. Com exceção das seqüências de batalha, com ênfase no aspecto gráfico, coreografia estilizada e um uso admirável dos contrastes entre os vermelhos das vestes espartanas e o cinza dos uniformes persas, “300” se arrasta, perdido em lições ideológicas de intenções completamente duvidosas.

O filme à todo tempo procura mostrar o triunfo da força contra a tirania e o misticismo persa. Mais parece um discurso inflamado de Auguste Comte, o mestre positivista dos últimos tempos. Os diálogos, se dissecados, estão mais para um manual fascista de métodos do que para uma narrativa fílmica, pois tenta, à todo tempo, reproduzir a filosofia colonialista do “choque de civilizações” entre o ocidente da razão e o oriente da bárbarie.

Entre uma cabeça decepada e mais alguns litros de jorro de sangue digital há discursos sobre o significado da liberdade, o real valor da morte e outras filosofices muito mais enganadoras do que funcionais. O único talento que é exibido no filme à torto e a direito são os músculos e barrigas tanquinho que dão um alívio geral no público feminino e no masculino também. Com toda certeza as academias e lojas de alimentos fitness, depois de 300, irão faturar mais um pouco.

A idéia que norteou o filme era a de repetir a bem sucedida adaptação de outra obra de Miller, Sin City, que Robert Rodriguez levou às telas nos idos 2005. Aquele filme misturou uma impressionante mistura gráfica dos quadrinhos com planos bem cinematográficos e elaborados. Mas Snyder fracassou na empreitada. A diferença mais marcante entre o filme e a HQ é a criação de uma subtrama protagonizada pela mulher do rei Leônidas (nos quadrinhos, a personagem está relegada a duas páginas e olhe lá). Outra mudança e bem notória é que a HQ não detalha cada músculo dos espartanos. O próprio rei Leônidas praticamente só aparece coberto por seu manto vermelho, já que o senhor de 50 anos dos quadrinhos não deve ter exatamente o corpo definido que o ator Gerard Butler, com 37, exibe ao encarnar o papel.

NOTA: 4,0

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