DESLUMBRE DO AMOR E DA DOR
por Paulo Floro

2046 é um filme sobre dor. E amor, e sobre o diálogo entre esses dois sentimentos. E se tratando de uma obra de Wong Kar Wai (Amor À Flor da Pele, 2000), teremos uma bem acurada viagem, um mergulho na vida dos personagens, um filme sobre paixão e perda.

Nos anos 60 um escritor, (Tony Leung Chi-wai) tem intensas relações com quatro mulheres, uma jogadora (Gong Li), duas prostitutas (Zhang Ziyi e Carina Lau) e a filha do dono do hotel onde mora (Faye Wong). Vivendo num pequeno hotel, ele tenta terminar sua obra de ficção “2046″, sobre um trem que leva passageiros em busca de seu passado, do qual apenas um voltou. Nesta obra, o escritor Chow absorve todos que encontra, para que como personagens de seu livro, os possa analisar, buscar compreender.

É um filme que ajusta a beleza à construção da história. Da direção de arte dos figurinos, da construção dos cenários de época, da penumbra, da música (inclusive Nat King Cole com “The Christmas Song” , perfeito). Tudo leva seu tempo, e o tempo aqui é muito particular, sendo conduzido de acordo com o envolvimento entre os personagens. E são várias épocas e várias realidades, todas tratando de amor e distância.

E o diretor embarca o escritor protagonista numa viagem metafísica, ao colocar um filme dentro do filme, que é a obra futurista “2046″. Nesta obra, do qual o próprio Chow faz parte encontram-se todas as mulheres e suas angústias, prazeres e desejos. A diferença é que aqui ele consegue conviver com elas. Tudo se inter-relaciona. As andróides do livro, cuja distância forçada as fazem chorar, o calor humano que falta durante o natal, a impassividade com relação ao amor. Cada personagem tem seu tempo, e todas possuem uma história com o escritor que não se relaciona com as demais.

Zhang Ziyi está perfeita, conduz a parte mais passional (e também a mais triste) do longa, como a prostituta que apesar do amor que entrega, recebe como resposta o simples pagamento do encontro. Ziyi, como estrela do longa, usa da força do seu charme para deixar o filme grande. Sem dúvida a maior estrela do cinema da China hoje e como não do cinema mundial. Khar Wai foi esperto ao trazer quatro ótimas atrizes (divas?) de seu cinema para 2046. Elas sustentam o longa, conduzem a trama.

Há um esvaziamento emocional de Chow e de suas amantes. Em todas há a negação do amor, tanto por parte delas quanto por Chow. A força da paixão, que também pode levar à auto-destruição, é um tema caro a Wong Khar Wai que neste filme é mostrado de forma lenta, dura. Tão duro quanto Chow em sua relação aos seus sentimentos. Não é um filme para muitas platéias. Trata-se de um longa em que o tempo, tanto o real quanto o subjetivo é muito importante. As relações, inclusive o sexo, são muito sinceras, estreitas.

Tudo isso é para ser apurado com calma, sobretudo as cenas futuristas, unindo cyberpunk com apurado senso artístico, na forma e na linguagem. Se bem que tudo flui perfeitamente, justamente por causa das interpretações das atrizes, sobretudo Gong Li e claro, Zhang Ziyi. É nessa força que reside a beleza de 2046, uma pequena obra prima do cinema chinês, e um atestado de genialidade de um diretor como Khar wai.

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