EU MENOR QUE O MUNDO
Moon Pix, quarto disco de Cat Power, completa 10 anos de tristeza pesada e melancolia encantadora
Por Mariana Mandelli

Faltam adjetivos para retratar a beleza, o talento e a música de Chan Marshall. Mais do que “musa indie” e qualquer alcunha ordinária usada para descrevê-la, a cantora – mais conhecida como Cat Power – é puro sentimento. Quem ouvir Jukebox, seu último disco, lançado neste ano, pode comprovar a emoção com que ela interpreta cada nota, cada acorde. Os mais fãs e admiradores de longa data, porém, sabem que o ápice da carreira de Marshall – sem desmerecer, de modo algum, seus ótimos trabalhos mais recentes – foi em 1998, quando Moon Pix, seu quarto disco, chegou às lojas de todo o mundo.

Faz dez anos que Marshall juntou onze pedaços de si mesma, que já haviam sido picotados em Dear Sir (1995), Myra Lee e What Would the Community Think? (ambos de 1996), e colou parte por parte desse mosaico triste com uma cola que mescla guitarras acústicas, vozes sobrepostas e letras dilacerantes – coisa de quem sente toda a dor do mundo no corpo e na alma e não sabe o que fazer com tanta melancolia. Moon Pix é quase um pedido aflito de ajuda de quem quer se livrar dos infortúnios sentimentais e do peso de ter de lidar com si mesmo – tanto que cinco das canções do disco foram escritas em apenas uma noite. E o álcool, tão comentado companheiro da carreira de Marshall, ajudou a transformar porres homéricos em uma poesia honesta de versos irresistíveis – tanto que é praticamente impossível não se render e embarcar no naufrágio desolador de suas canções.

Acompanhada de Mick Turner e Jim White do The Dirty Three, Marshall gravou Moon Pix na Austrália. Lançado pela Matador Records, o álbum foi um verdadeiro ponto de virada estética na música da cantora. A voz arranhada e gritada, os arranjos sujos e a tensão harmônica dos trabalhos anteriores foram deixados para trás, dando lugar a uma pureza e uma sofisticação artística que foram confirmadas mais tarde em You Are Free (2003) e The Greatest (2006), respectivamente.

Elogiadíssimo pela crítica especializada, Moon Pix ofereceu coesão musical para a carreira de Marshall e consagrou-a no mundo do indie rock. O charme despretensioso que injetou em letras reflexivas, instrumentação melancólica e uma voz privilegiada deu ao álbum uma magia quase sensual, inerente a faixas como a deliciosa “Cross Bones Style” e “American Flag”, que abre o disco com batidas da música “Paul Revere”, do Beastie Boys. O desespero poético se faz presente em “You May Know Him”, “No Sense”, “He Turns Down” e “Say” (com efeitos de trovões ao fundo), faixas encantadoramente depressivas. Já “Back of Your Head”, “Moonshiner” e “Peking Saint” são mais sombrias e quase etéreas, exprimindo simbolicamente a solidão visceral que, na verdade, permeia todo o disco.

Entretanto, os verdadeiros diamantes de Moon Pix são, sem dúvida, “Metal Heart” e “Colors and the Kids”. A primeira, regravada em arranjos de jazz e blues em Jukebox, é uma das canções mais tristes já interpretadas pela cantora de “coração de metal”. Guitarras sublimes e vozes sobrepostas, somadas a uma letra sobre desilusão, fazem dessa faixa emblemática uma das melhores canções da carreira de Cat Power. Já a outra é provavelmente uma das coisas mais tristes cantadas junto a um piano que a moça já fez. Versos solitários e uma melodia lindamente arrastada transformam os seis minutos e meio de “Colors and the Kids” em uma pérola da amargura que dificilmente seriam encontrados na sua discografia com a mesma intensidade.

Muito mais do que um marco na trajetória artística de Cat Power, Moon Pix é, seguramente, um dos discos mais belos da década de 90. Com o perdão do clichê sertanejo, mas amor rima sim com dor. E, neste caso, a rima foi transformada em um lamento sônico que ecoa há dez anos, fazendo do “coração de metal” de Chan Marshall uma fonte para algumas das melhores canções da nossa época.

SAIBA MAIS
Site oficial: www.catpowerjukebox.com
Myspace: www.myspace.com/catpower

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