REPENSAR O REAL
Aniversário de 10 anos do filme Matrix repensa controle da informação que era mote principal do longa dos irmãos Wachowski
Por Tatiana Notaro, especial para a Revista O Grito!

Nos idos anos ditatoriais (no Brasil, de 1964 a 1985), vivia-se nas rédeas curtas do poder militar, do Golpe de 64 até as Diretas. Muitas amarras, inclusive para o pensamento. Esse ainda incipiente controle da informação, com censura de músicas, da imprensa e de outras formas de pensamento, foi apenas uma linha dessa história que se espalhou demais e causou incontáveis contágios. Sim, estamos todos, ainda, sob regência de um poder que decide o que, quando e quem deve saber. Ainda hoje.

O filme Matrix (Matrix, 1999), que está completando 10 anos, traz o controle da informação como mote para contar a história de Neo (Keanu Reeves). A realidade camuflada pelo virtual é controlada pela matrix que significa “o controle, o mundo de sonhos criado pelo computador e feito para nos controlar”. O frisson causado pelo filme não se deve somente às suas idéias futuristas, que encheram os olhos de muitos “esquizofrênicos”, mas pelo seu próprio significado temporal. A película chegava no final dos 90, juntamente com as expectativas sociais e científicas (claro!) que vinham anexados àquele início dos anos 2000.

O fato é que informação é sinônimo de poder desde que o mundo se tornou o que ele é hoje. Um diálogo entre Neo e Morfeu (Laurence Fishburne) dá bem a dimensão do que estamos falando:

– Você acredita em destino, Neo – pergunta Morfeu.

– Não.

– Por que não?

– Não gosto de pensar que não controlo a minha vida.

Noutra hora, o líder explica: “A matrix está em todo lugar. É o mundo que foi colocado sob os seus olho para que você não visse a verdade”. E essa verdade é direta: “você é um escravo”. Qualquer semelhança não é mera coincidência, já que casos como esse acontecem todos os dias, em várias instâncias da vida da sociedade – na política, no jornalismo, na cultura.

No mundo das artes, sejam elas de qualquer natureza, há muito mais informações atrás das cortinas do que se pode cogitar. Na música, por exemplo, podemos desenterrar o mito funesto “Paul is dead”, que envolve a inglesa The Beatles, de que o baixista Paul McCartney teria morrido em 1966, em um acidente de carro. Conta-se que o tal acidente teria acontecido no auge da banda e por idéia do empresário, Paul foi substituído por um sósia. Não aceitando a idéia, os outros beatles teriam espalhado mensagens subliminares em músicas e nas capas dos discos. A mais emblemática é a do álbum “Abbey Road”, que mostra os quatro Beatles atravessando a rua:

A capa simularia um funeral. Na frente, Lennon seria o padre, Ringo, o agente funerário, Paul é o morto e Harrisson seria o coveiro. Alguns sites que tratam sobre o assunto falam de detalhes que indicariam a mensagem subliminar nesta capa: Paul é o único de pés descalços (os ingleses enterram assim os seus mortos) e está de olhos fechados. A placa do fusca branco do lado esquerdo da fotografia traz LMW 28IF, que alguns traduzem como “Linda McCartney Weeps” (Linda McCartney Chora) ou “Linda McCartney Widow” (Linda McCartney Viúva). O “28IF” seria “28 years IF alive” (28 anos de vivo). Há ainda outras mensagens subliminares nesta e em outras capas e músicas da banda.

Outro exemplo bem prosaico é o da Coca-cola e aquele famoso desconhecido ingrediente secreto de sua fórmula, guardado sob total e completa vigilância. Nesse caso, vai muito além da mera competição mercadológica. Dizem que apenas duas pessoas por vez conhecem esse segredo, que data da criação da bebida (que era um remédio) em 1886, e que ele está protegido por várias patentes.

O cinema também está ligado ao controle da informação, com tal força que influencia na história. Hollywood, por exemplo, é tida como um dos principais instrumentos de fortalecimento da idéia nazista de superioridade racial. Filmes de faroeste, por exemplo, mostra cowboys massacrando indígenas na tela. Na vida real, constrói uma imagem negativa sobre as outras raças, assim como os filmes de guerra, sempre com asiáticos, africanos e árabes do outro lado da trincheira. E o controle que há nesse setor não é de hoje, quando Charles Chaplin atacou o nazismo com o “O grande ditador”, teve que abandonar os Estados Unidos antes da estréia do filme. No entanto, há uma mudança iminente nesse setor: se a hegemonia americana na sétima arte começou junto com a Primeira Guerra Mundial, em 1914. E são instrumentos mercadológicos e a criação dos gêneros que contribuíram com esse sucesso. Hoje, o cinema é uma arte mundial – lembramos que indiano “Quem quer ser um milionário” levou a estatueta do Oscar este ano.

Assim como em Matrix, onde os seres humanos são aprisionados e têm suas mentes manipuladas, temos vários exemplos palpáveis do controle da informação (como a grande mídia, que se abstêm de publicar denúncias e denunciar escândalos). E isto em nada tem a ver com a democracia que muitos afirmam existir no Brasil. Dentro da construção da sociedade, temos uma estrutura que só vem a contribuir com a persistência das oligarquias, a falta de educação dos cidadãos, somente para citar, sem muitas delongas.

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